Questões Sociais Cantava-se outrora, numa toada de sabor popular: «é sempre assim; a gente só dá flores a quem já tem seu jardim». Esta afirmação corres-ponde a uma prática secular, que está a ser aplicada na luta actual contra a crise. As medidas anunciadas, a favor de empresas em dificuldade e à habitação, apresentam duas características bem elucidativas: só abrangem uma parte das situações em causa; e deixam de fora muitas pessoas e famílias que estão a resvalar, da inclusão social, para a pobreza e a exclusão. Tudo seria diferente se tais medidas contemplassem expressamente estas pessoas e famílias.
Seria razoável nomeadamente que, a favor das empresas e do emprego, se promovesse a criação e desenvolvimento de micro-empresas mediante, por exemplo: o apoio ao escoamento, interno e internacional, das suas produções; a facilitação da sua actividade; o pagamento das dívidas do sector público… Seria também razoável que se promovesse o desenvolvimento local, mediante o incentivo de actividades, já existentes ou a criar. Seria razoável ainda proporcionar, a diplomados no de-semprego, trabalhos de animação local, em ordem à criação de micro-empresas e à promoção de iniciativas de desenvolvimento; nada obstaria a que a investigação científica aplicada contribuísse para que as intervenções destes diplomados fosse geradora de riqueza, tornando-se eventualmente «lucrativa» para o Estado.Também se poderia recorrer a eles para o acompanhamento dos desempregados e das pessoas em situação de maior carência, tendo em vista a procura das soluções possíveis e a elaboração de «projectos de vida» pessoais. Coloca-se, aos diplomados e aos centros de investigação, um desafio premente e altamente motivador: transformar necessidades em potencialidades, e contribuir para que as pessoas em situação de necessidade sejam co-autoras do seu desenvolvimento.
No que se refere à impossibilidade de muitas famílias assegurarem o pagamento das prestações aos bancos, pela compra de casa, é de louvar a medida política adoptada recentemente; porém, ela deixa de fora – exclui – inúmeras famílias cujas prestações se estão a tornar incomportáveis. Por isso, chega a ser chocante que nem os bancos nem o Estado nem a sociedade civil se tenham lembrado que se impõe uma estreita articulação, neste domínio, com a acção social, pública e privada; daí poderia advir o reforço da solidariedade a favor da solução dos problemas não solucionáveis por critérios estritamente bancários. Pequenas ajudas, nuns casos, «garantias morais» noutros, procura de soluções alternativas, quando necessário, e outras iniciativas poderiam evitar, em muitos casos, o descalabro da passagem da inclusão social para a exclusão. O rigor bancário é normal. Menos normal, e porventura menos moral, é que o sistema bancário se esqueça que os seus clientes…são pessoas inseridas nos respectivos meios sociais.
