Encíclicas sociais dos Papas – Pacem in Terris (1) Há quem divida os Papas entre “os que têm boa imprensa” e “os que têm má imprensa”. João XXIII tinha boa imprensa. E sabia disso. E além de boa, quando lançou a “Pacem in Terris” (PT), tinha muita. O Concílio atraíra jornalistas do mundo inteiro a Roma, pelo que a última encíclica do “Papa bom”, que morreria passados menos de dois meses, obteve um eco superior a qualquer documento anterior. É o documento papal mais popular – dizem.
Para o grande eco da PT (primeira frase: “A paz na Terra, profunda aspiração de todos os tempos, não se pode estabelecer se não se respeitar integralmente a ordem estabelecida por Deus”) contribuíram ainda dois factores. No mundo pairava o terror da guerra nuclear por causa da “crise dos mísseis de Cuba”. O próprio João XXII telefonara a Kennedy (não se sabe se a Kruschev também) para tentar resolver o drama. Por outro lado, a encíclica aparece dirigida não só aos patriarcas, bispos, clero e fiéis, como era costume, mas também “a todas as pessoas de boa vontade”. Esta simples frase teve uma resonância global.
Uns dias antes de morrer, João XXIII escreve: “Que ressonância a desta «Pacem in Terris»! Nesse documento pus de mim mesmo, sobretudo, o humilde exemplo de tentei dar durante toda a minha pobre vida: ser um bom homem pacífico”.
Ainda que não tão inovadora como a “Mater et Magistra”, a PT representou uma revolução no modo de olhar para os pro-blemas do mundo.
Primeiro, João XXIII dá cidadania eclesial aos direitos humanos. Hoje este aspecto parecerá estranho ao comum dos cristãos, porque a Igreja é a maior defensora dos direitos humanos, mas a verdade é que desde o séc. XVIII ecoava nos corredores eclesiásticos que “só Deus é que tem direitos”. Com a PT, a dignidade humana passa a (dever) estar no centro de toda a política e economia.
Segundo, o Papa olha para o mundo com a categoria evangélica dos “sinais dos tempos”. Vê sinais positivos como o avanço das classes trabalhadoras, a participação da mulher na sociedade, a independência dos povos, ou “convicção de que todos, pela dignidade da sua natureza, são iguais entre si”. Este modo de ver passa a ser o registo da Igreja (em vez da condenação e da fuga do mundo) (PT 39ss).
Terceiro, o Papa incentiva a colaboração entre católicos e não católicos (PT 157ss), onde se incluem as outras confissões cristãs e principalmente os comunismos ateus. “Quem poderá negar a possibilidade de esses empreendimentos [baseados em falsas teorias sobre a natureza e a humanidade] (…) conterem elementos bons e merecedores de aprovação”? Era todo um mundo novo de diálogo que se abria à Igreja. J.P.F.
Cronologia
1961 – (13 de Agosto) Início do Muro de Berlim
1962 – (Outubro) Crise dos mísseis de Cuba
1962 – (11 de Outubro a 8 de Dezembro) Primeira sessão do II Concílio do Vaticano
1963 – (11 de Abril) Lançamento da “Pacem in terris”
1963 – (3 de Junho) Morre João XXIII
1963 – (21 de Junho) Eleição de Paulo VI
1963 – (29 de Setembro a 4 de Dezembro) Segunda sessão do Concílio
