Propensão «axiocrática»

A esfera axiológica (ou dos valores) tem sido muito referenciada. Diz-se – e é verdade – que a actual crise económico-financeira é, fundamentalmente, uma crise de valores. Diz-se também que algumas políticas públicas e o «Programa de Estabilidade e Crescimento» (PEC) não respeitam valores fundamentais. Diz-se, ainda, que a vida política e o nosso quotidiano se encontram desviados de valores inalienáveis…

A par da denúncia destas omissões e desvios, não falta quem afirme que a luta social mais importante, neste momento, se situa na esfera dos valores. Quase se dá a entender que, prevelacendo os bons valores, se resolverão facilmente os problemas económicos, financeiros, sociais. Atribui-se, deste modo, aos valores e aos seus militantes, um poder que se pode designar por «axiocrático».

Esta propensão axiocrática esquece que existe uma estreita relação entre valores e realidades socioeconómicas: Nuns casos, eles brotaram dessas realidades – como acontece no valor «democracia»; e, em todos os casos, o estudo e a apresentação dos valores devem fazer-se em articulação estreita com essas mesmas realidades. Por exemplo, os valores «dignidade humana», «igualdade fundamental», «garantia de direitos»…não se podem dissociar delas, sob pena de ficarem reduzidos a abstracções ou utopias irrealistas. Deste modo, incumbe aos militantes dos valores não só proclamá-los e clarificá-los, mas também contribuir para a sua inserção na sociedade e na economia. Se não actuarem deste modo, desacreditam os valores, e podem contribuir para o fomento dos respectivos contra-valores.

Face às políticas públicas e ao PEC, não basta criticar as suas insuficiências ou injustiças. Não basta denunciar que eles prejudicam as classes médias e as mais pobres, em benefício das mais ricas; torna-se imperioso demons-trar isso convenientemente, e dizer quais as alterações recomendáveis e como se pode garantir o equilíbrio financeiro necessário. Não é fácil este conjunto de tarefas, mas está perfeitamente ao nosso alcance; na verdade, existem cidadãos, com altas qualificações em todos os domínios, capazes de estudar as diferentes áreas de intervenção política, e de apresentar propostas consistentes em termos económicos, sociais e ambientais.

No que respeita aos cristãos leigos, não basta estudarem e difundirem a doutrina social da Igreja; é necessário que saibam viabilizá-la na prática. Para tanto, impõe-se a realização de reuniões de reflexão, a nível paroquial, diocesano, nacional, institucional ou de movimento. Talvez que, frequentemente, não se consiga chegar a acordo; tal facto deveria contribuir para a intensificação do diálogo e para se atenuarem as posições de arrogância perante os decisores políticos, ou outros.