Poço de Jacob – 34 Na Bíblia, Jesus é claro ao dizer que quem não é fiel no pouco não o será no muito, e quem foi fiel na administração de pouca coisa à frente de muita será colocado. Hoje, os homens querem resultados imediatos e satisfatórios e, se possível, grandiosos, em tudo aquilo que fazem. Pretende-se chegar ao alto vindo de cima, subindo depressa, pisando no que estiver no caminho, ou seja, em quem estiver no seu cami-nho. Queremos ser logo doutores e não nos contentamos em começar bem lá de baixo, pois, afinal, “não foi para isso que eu estudei”, embora o melhor fosse dizer, hoje, “que não foi para isso que eu andei na universidade, com minha capa negra a passear pela cidade”…
Jesus fixa os pormenores em toda a Sua vida.
A Bíblia está repleta de minuciosos pormenores que nos passam despercebidos por nos parecerem sem importância. Mas é aí, no pequenino e no insignificante, que Deus revela os seus maiores tesouros. “Bendito sejais Pai, porque revelastes aos pequeninos…”. “Quem se fizer como a criança”.
Ao estudarmos a Sagrada Escritura, quer a nível exegético, quer a nível espiritual, vemos como uma palavra na língua original pode mudar todo o sentido do texto e da mensagem. Nem sempre há fidelidade nas traduções para vernáculo. Há dias, comentávamos frases como esta, em relação à Transfiguração: Para que importa no texto dizer que os apóstolos estavam cheios de sono, ou que Pedro, ao pedir três tendas, não sabia o que dizia? E mesmo não sabendo exegese, poderíamos ver que se trata de um despertar para uma nova economia de salvação que supõe a superação do Antigo Testamento, e que as três tendas propostas por Pedro bem podiam apontar para o mesmo Pedro, Tiago e João, chamados, até por Paulo, “as colunas da Igreja”. Poderíamos perceber que Deus continua a sua acção em favor dos homens, no novo Israel, e que as doze tribos de Israel se fundamentariam em duas realidades simultâneas: Jesus é Deus e a sua humanidade Ressuscitou dos mortos, para nos fazer participantes, pelo Baptismo, da sua vida divina. Pormenores… que dizem tanto na hora da “Lectio Divina”. Assim é o valor deste livro inesgotável.
Costuma-se dizer que Jesus está na hóstia em corpo, sangue, alma e divindade, e cremos, sem nenhuma sombra de dúvida, pois a igreja nasce da Eucaristia, mas a sua presença não é menos real e actuante na Bíblia, pois Ele é o Verbo Eterno do Pai, pelo qual o pai criou todas as coisas e nos falou todas as coisas.
Se olharmos para Jesus em Sicar, vemo-lo sentado à beira do Poço… Alguém comentava há dias sobre o que pode ser o poço na nossa vida: Abismo, beco sem saída, fonte de água refrescante, ou até espelho onde vemos o nosso rosto quando nos debruçamos para o seu interior e nos vemos reflectidos na água, serena e transparente. Não seria para nos vermos assim, reflectidos num espelho, e como Moisés, com o rosto transparecendo a glória que trazemos dentro, e saber, que o encontro com Jesus, nos dá a imensa possibilidade de nos encontrarmos connosco mesmos e levar água aos sedentos de Vida?
Sentado ali na beira do poço, Ele, como Mestre, ensina-nos os valores dos pormenores ao olharmos para Ele e vermos Nele, reflectida, como num espelho, a Glória do Pai e o imenso amor que o Pai nos tem. Que o Senhor nos faça crescer harmonicamente, amando a nossa condição pequenina.
P.e Vitor Espadilha
