Escrita medieval no Arquivo Distrital

Nos dias de hoje, fotocopiar, digitalizar e imprimir documentos e fotografias é uma coisa ao alcance de qualquer pessoa que tenha um computador e uma impressora multifunções, como simples é comprar o jornal ou um qualquer livro, ou mesmo consultar a mais diversa informação na Internet.

No entanto, nem sempre foi assim. Ainda há poucas décadas, a impressão de jornais e livros era uma actividade demorada, feita por tipógrafos experientes, que manuseavam os pequenos caracteres de chumbo, e as gravuras eram reproduzidas através de métodos complicados como as zinco-gravuras. Mesmo assim, as famosas “rotativas” conseguiam imprimir algumas dezenas de milhar de jornais por noite.

Antes de Gutemberg ter inventado a impressão, em meados do século XV, a escrita e principalmente a cópia de livros eram tarefas que estavam reservadas a especialistas, geralmente monges, que manual e minuciosamente copiavam livros, muitos deles autênticas obras de arte de caligrafia e gravura.

É essa arte de copista que está patente ao público no Arquivo Distrital de Aveiro, na exposição “Scriptorium Medieval”, evento assessorado por Maria José Azevedo Santos, da Universidade de Coimbra.

O processo da escrita iniciava-se muito antes do próprio acto de escrever. Com toda a paciência, o “monge” preparava a pena, “a terceira pena da asa do pato”, retirando o “penacho” para fazer a “pena” (designação ainda hoje usada por muitos quando se referem às canetas). A tinta também não se comprava em papelarias e supermercados como actualmente, mas era feita manualmente pelo “monge copista” a partir de nozes, acácia e outros produtos naturais, os quais eram moídos e misturados com goma, trabalho feito cerca de dia e meio antes de usar.

Na Idade Média, o papel não se vendia às resmas, mas era preparado a partir do pergaminho, um “papel” áspero que o “copista” “amaciava” com a pele do peixe Lixa. Depois, essa folha de pergaminho era muito bem fixada no plano inclinado da “escrivaninha”. As cartas e testamentos eram escritos numa mesa vulgar.

Só depois de todo esse trabalho é que o “copista” colocava o livro a copiar no local sobre o plano inclinado, de modo a poder olhar para o livro e para o pergaminho onde escrevia… manualmente, com caligrafia artística.

Como não havia luz eléctrica, copiar um livro, por exemplo uma Bíblia, era um trabalho que poderia demorar meses, especialmente nos dias curtos e escuros de Inverno. No final de cada dia de trabalho, o “monge copista” ficava com “dores em todo o corpo”, como explicou o “monge” do Arquivo Distrital de Aveiro, ao dizer que “dói-me as mãos, dói-me os olhos, dói-me os rins. Dói-me o corpo todo!”

E qual era o pagamento de todo esse trabalho minucioso e artístico? “Nada!”, por vezes “um par de luvas ou um pássaro numa gaiola, para me fazer companhia”, porque o trabalho de copista era feito em absoluto silêncio e num acto isolado.

Para além das visitas à exposição, que devem ser marcadas por telefone (234377990) ou por e-mail (mail@adavr.dgarq.gov.pt), há também visitas guiadas, com explicação do espaço, do mobiliário e dos equipamentos usados pelos “monges copistas”. No Arquivo Distrital de Aveiro foi montado um admirável “Scriptorium” medieval, como os que existiam nos mosteiros e catedrais da Idade Média.

Cardoso Ferreira