Somos testemunhas da Ressurreição

Páscoa “Somos testemunhas da ressurreição”, proclama o Bispo de Aveiro na vigília pascal. Esta certeza, sustentada na fé dos discípulos e continuamente motivada na partilha do Pão, ilumina o caminho e envia os cristãos a comunicar, a todos, a alegria da vida – afirma D. António Francisco.

Retomam-se nestas páginas alguns destaques das celebrações do Tríduo Pascal presididas pelo Bispo de Aveiro. As homilias podem ser lidas na íntegra do sítio da Diocese (www.diocese-aveiro.pt).

Quinta-feira Santa

Missa Crismal

Vivemos envolvidos social e culturalmente por situações de grande progresso e de afirmado desenvolvimento técnico e científico e simultaneamente sentimo-nos imersos nas incertezas do futuro que uma avassaladora crise económica arrasta consigo.

A cultura contemporânea está trespassada por uma corrente de medo. Vivemos apreensivos diante dos riscos que pesam sobre o homem, sobre o ambiente, sobre a segurança dos cidadãos ou mesmo sobre a natureza. Será que a fé nos adianta respostas para estas questões?

O cristianismo deve oferecer-nos uma luz de esperança. O cristão não é uma pessoa estranha nem extraordinária mas simplesmente alguém que acolhe e respeita a vida como um dom, que acredita em Jesus de Nazaré e que interpreta os acontecimentos à luz da fé, com renovada esperança.

Convido-vos, irmãos e irmãs, a alimentar, a renovar e a fortalecer esta esperança de fazermos nascer em nós o homem novo. A nossa missão consiste em partilhar a nossa esperança. Temos um olhar novo sobre a vida e sobre a história. Fomos criados por Deus para a vida e para a felicidade. Convido-vos a distribuirmos as riquezas da graça impressas e expressas no acolhimento fraterno, na escuta orante da palavra de Deus, na celebração dos sacramentos, na aproximação de Deus e nos comportamentos éticos de uma vida coerente com a sua fé.

Somos chamados a ser sentinelas vigilantes colocadas na aurora de um mundo novo, mais atentos aos valores novos que começam a germinar do que preocupados com os tempos de outrora que estão a ruir. Não tenhamos medo das bem-aventuranças do Reino, por mais fáceis que sejam a dizer e por mais difíceis que sejam a realizar. Tenhamos a ousadia de acreditar que as bem-aventuranças são possíveis. Animam-nos sempre a preocupação pelo bem comum e a coragem da verdade mesmo quando um e outra se tornam sofridos e dolorosos.

[Aos presbíteros:] A santidade de vida sacerdotal é o nosso primeiro e imprescindível testemunho evangelizador. O importante da nossa vida sacerdotal não é contabilizar êxitos apostólicos ou sucessos humanos mas sim encontrar a alegria da vocação e a santidade do ministério que santifique igualmente aqueles a quem somos enviados e dê sentido e beleza às nossas comunidades.

Quinta-feira Santa

Celebração da Ceia do Senhor

A Eucaristia tem a força propulsora do envio e o sentido imenso da missão.

Que o Pão da Eucaristia seja igualmente repartido por todos os nossos irmãos doentes e idosos para que nunca lhes falte o alimento que sacia a sua fome de Deus e dá sentido redentor às suas dores e provações!

Que a Eucaristia celebrada seja também adorada e procurada na presença real de Cristo nos nossos sacrários. Façamo-nos testemunhas desta presença para que Cristo no silêncio discreto dos nossos tabernáculos seja fonte de vida, de ânimo e de esperança para o mundo!

A Eucaristia é este centro do dinamismo missionário e do serviço aos irmãos, sobretudo aos mais pobres, para que sejamos âncora e farol de um mundo novo. Aí se aprende, também, este jeito de quem lava os pés aos discípulos e se faz servo e irmão de todos. Este gesto do lava-pés afirma um modo samaritano de servir e dá valor ao trabalho humilde e esquecido, às vidas sóbrias e ignoradas, às tarefas sem glória nem ostentação.

Sexta-feira Santa

Celebração da Paixão do Senhor

Assaltam-nos constantemente perguntas várias e questões difíceis que não encontram respostas evidentes no coração humano: como se compreende o sofrimento e a morte no contexto do anúncio de um Reino novo? Todos nós dirigimos a Deus palavras tantas vezes inconsoladas em momentos de provações dolorosas com o coração magoado pela doença e pela dor. Quantas vezes como Job, Jeremias ou Jesus clamamos a Deus a nossa dor!

Ajudam-nos nestas horas como ajudaram Jesus no Calvário e no caminho que ali O conduziu a consolação recebida dos mais atentos, a presença solidária dos mais generosos e a ajuda corajosa de todos os cirineus. Esta imprescindível ajuda, à mistura com a força inquestionada da fé, conduz-nos à consolação da confiança que, sempre e também nestas horas, descobrimos e encontramos em Deus.

Habituei-me desde sempre a ver no sofrimento um caminho de santidade e deu-me o meu ministério a ocasião e a bênção de encontrar verdadeiros santos em marés vivas de profundo sofrimento. A serenidade, a fé e a coragem são sinais do mistério redentor daqueles que completam em si o que falta à paixão do Senhor, como afirma S. Paulo. Neles se inscreve a concretização das bem-aventuranças. “Bem-aventurados os que choram porque serão consolados. É deles o Reino dos Céus.”

Diante de Jesus na cruz olhamos com redobrado afecto e acrescida preocupação para todos os crucificados da vida, para as vítimas inocentes de catástrofes da natureza, como são as vítimas do sismo em Itália, e para as vítimas da violência e da injustiça humanas. Sabemos todos como o mal também hoje atinge pessoas, famílias, grupos humanos ou mesmo povos inteiros.

É tempo de nos fazermos mensageiros corajosos da redenção que da cruz nos vem para que a Páscoa da alegria, da esperança, da liberdade, da justiça, da paz e do bem esteja ao alcance de todos.

Sábado Santo

Vigília Pascal

A ressurreição de Cristo é o acontecimento central da nossa fé, testemunhado por quantos O procuraram no sepulcro e viram o túmulo vazio. Jesus Cristo é a cabeça de uma nova humanidade, modelo e paradigma de quanto a comunidade dos crentes tem por missão realizar. Importa, por isso, fazer da Páscoa de Jesus a nossa Páscoa. A comunidade cristã encontra em Cristo, vivo e ressuscitado, a sua razão de ser e o sentido da sua presença viva e vivificante no meio do mundo.

É este um tempo particularmente belo e denso a dizer-nos que todos os dias do cristão e da comunidade devem ser tempo pascal.

As comunidades cristãs, paróquias, movimentos apostólicos e serviços pastorais deveriam inscrever no seu íntimo este sentido pascal que nos impele, por Cristo vivo e ressuscitado, a sermos verdadeiros “servidores da vida e da esperança”. Este espírito pascal estende-se também a todos os homens e mulheres de boa vontade que, muitas vezes mesmo sem terem esta consciência crente ou uma afirmada prática cristã, são nas suas vidas e profissões verdadeiros servidores da vida. E tantos eles são, felizmente!

A Páscoa, por seu lado, ilumina os caminhos destes servidores da vida transformando o caminho da cruz que conduziu à morte em caminho de luz que nos conduz à vida do ressuscitado.

Somos testemunhas da ressurreição. Reconhecemo-Lo ao partir do pão, como os discípulos de Emaús. Acreditamos sem termos visto, segundo a expressão de Jesus a Tomé. Sustenta-se esta certeza na fé dos discípulos, no testemunho dos que visitaram o sepulcro vazio, na presença de Jesus ressuscitado no meio dos apóstolos e na vida da Igreja, sacramento vivo de Jesus vivo e ressuscitado. A fé pascal dos cristãos é este encontro com Cristo ressuscitado que nos envia a comunicar esta certeza de vida e este sentido de alegria pascal a todos os outros.