«Empresas»…

Questões Sociais A palavra «empresa» entrou na linguagem corrente a partir de meados do século passado; outrora utilizavam-se designações correspondentes às actividades económicas realizadas. A vulgarização do termo originou uma certa perda de autenticidade; talvez não se tenha consolidado a própria noção da empresa como entidade geradora de valor acrescentado, em termos económicos, capaz de subsistir e se desenvolver, com autonomia, em mercado aberto. Surgiram, pelo menos, quatro tipos de «empresas»: a autónoma, a incentivada, a contratual, e a parasitária.

A empresa autónoma caracteriza-se por não depender de apoios do Estado nem de outras entidades públicas; algumas fazem questão de não receber quaisquer ajudas; outras aproveitam as ajudas que são colocadas à sua disposição, embora não precisem delas. A empresa incentivada é a que surgiu com base em incentivos públicos, ou precisa deles para sobreviver. A contratual baseia-se num contrato com o Estado, que lhe assegura consideráveis vantagens especiais; muitas delas são de capital estrangeiro, e retiram-se do país quando não vêem interesse em continuar. As parasitárias formam o lastro mais dependente das incentivadas e das contratualizadas; pressionam sistematicamente o Estado para que sobrevivam, pretextando até que ele não pode deixar morrer o que ajudou a criar.

A tendência normal dos governos, bem como de outros órgãos de soberania e dos partidos políticos, vai para o menosprezo das empresas autónomas – vistas sobretudo como contribuintes – e para a absorção com as outras – vistas como necessárias e necessitadas; uma certa promoção do empreendedorismo reforça esta tendência deturpadora da autenticidade empresarial. Neste contexto, a crise actual fez com que as forças políticas, as forças sociais e a opinião pública dominante se deixassem obcecar pelas empresas que precisam de ajuda, votando ao ostracismo as que procuram subsistir, e resistir, com honra e autonomia. Estas constituem por certo a maioria; no entanto, quase não existem nas decisões políticas, nas lutas político-socias nem nos «media». Orientações políticas tão óbvias como o posicionamentao cooperante do Estado, o pagamento efectivo das suas dívidas, a concertação social na procura de soluções, a simplificação da concessão de licenças, o não pagamento do IVA correspondente a receitas não cobradas, particularmente quando o devedor é o próprio Estado…continuam a não ser adoptadas de maneira convincente; por isso e por outras razões, muitas empresas sentem o Estado como inimigo e perseguidor, absorvido com a sua «clientela»…