Uma pedrada por semana Li há dias esta observação, escrita em tom de advertência: “Como é fácil dividir e como é fantástico derrubar muros e fronteiras, ainda que seja com um detonador”. Vinha acompanhada da experiência pessoal de quem viu e se quedou, silencioso e envergonhado, ante o muro de Berlim e depois se alegra por poder coleccionar um pedacinho dos seus destroços, como aliás tanta gente o fez. Eu, que passei o muro, também guardo um estilhaço.
Na luta política, agora a aquecer pelo cheiro a eleições, parece vigorar a medida de construir muros e armar fronteiras.
Levantam-se muros e gizam-se fronteiras, porque os actores em palco se chamam uns aos outros nomes nada simpáticos, insinuam maldades, gritam antecipados triunfos, formulam desejos sem espaço para os adversários, perdem a memória do que foram e disseram ontem, só porque, hoje, são candidatos de primeira fila e se prezam, com um certo despudor, em negar agora razões, que ontem o eram.
E, se alguém quer fazer a experiência do sensato, que pode passar apenas pelo “respeitem-se e entendam-se para bem do povo”, não sai imune da advertência, tais são as pedradas, atiradas por mãos conhecidas e por outras que se escondem.
Se os políticos em contenda e os profissionais dos aplausos gravassem o que dizem e depois o ouvissem, no silêncio da sua casa, com ânimo de reflexão e de emenda, ficavam, por certo, envergonhados. A não ser que já não tenham capacidade de corar…Mas, se for assim, terão eles, porventura, capacidade de intervir e de governar?
A política de espectáculo, que ainda por aí se faz, já mostrou o que vale e do que é capaz. Dizem, mordomos e actores, que é dessa que o povo gosta…Pobre povo que, antes, tudo ordenava e que acabou por ser açaimado.
