Uma pedrada por semana Têm-me passado pela vida muitos desabafos doridos. Gente desfeita porque confiou em quem mostrou não merecer confiança. Impressionam-me sempre os casos de idosos sem herdeiros, e de pais aos quais o amor pelo filhos os cega, que se antecipam a entregar os seus bens, confiando que filhos, sobrinhos ou outros beneficiados por eles velem até ao fim. Na escritura, porque se confiou e era vergonha não confiar, nada se pôs sobre direitos posteriores destes beneméritos antecipados. A verdade, porém, é que, quando não há vergonha, nem consciência, nem gratidão, e a ganância rói os ossos, é fácil empurrar para a rua, como indesejados e incómodos, os que confiaram e entregaram tudo.
Custa-me escrever isto, por tão doloroso. Mas esta cena vergonhosa, por incrível que pareça, continua a repetir-se. O amor de quem dá, muitas vezes é cego, e a ganância é sempre capaz de abafar a consciência. Daí, usufruir sem encargos é moeda corrente no mundo dos sem vergonha e dos sem dignidade.
O tribunal, mesmo lamentando a má sorte dos pais e dos tios generosos, e escandalizado com a maldade dos gananciosos, nada pode fazer, porque nada está escrito.
Há dias, um homem de futebol dizia que o seu contrato com o clube se renovara com um aperto de mão. Os papéis viriam depois. Para gente com vergonha, a palavra dada e selada com um aperto de mão é uma escritura. Foi assim e ainda hoje assim é para gente séria.
Preto no branco, mesmo quando se trata de filhos, e mais ainda prontificados que, com salamaleques, mimos e palavras doces, voltam para o seu lado a vontade de quem tem bens, mas não herdeiros.
É uma dor não confiar nos filhos, nem nos amigos, sorridentes e prestimosos, mas é dor maior ficar a sofrer privações injustas e dores que não se aliviam com desabafos.
Há histórias lindas de amor e de fidelidade. Mas o terreno está minado de tentações.
Ao lado dos mais fracos para os advertir e lhes abrir os olhos, não vão eles, ricos de amor e de pão, ficar mais pobres por carências, desgostos e desenganos.
