Agra do Castro pode ter cinco mil anos

Alguns materiais cerâmicos e utensílios em pedra sugerem que a zona entre Aveiro e Ílhavo foi habitada no terceiro milénio a.C.

O lugar da Agra do Crasto ou Crasto de Verdemilho, situado nos limites dos concelhos de Aveiro e de Ílhavo, na zona de expansão da Universidade de Aveiro, pode remontar a meados do terceiro milénio antes de Cristo, de acordo com a comunicação apresentada no Congresso Internacional de História e Património – Aveiro 250 Anos, por Paulo Morgado, Isabel pereira, Fernando Almeida e Sónia Filipe.

A eventual existência de um antigo povoado pré-histórico naquele local tem sido referida, ao longo dos anos, por investigadores e historiadores, sem que, no entanto, tenham encontrado vestígios arqueológicos suficientes para fundamentar essa hipótese, até que, em Março de 2003, de “uma maneira perfeitamente ocasional”, foram detectados “alguns materiais cerâmicos, localizados numa vala de drenagem aberta, numa extensão de pelo menos uma centena de metros”, conforme a comunicação daqueles quatro investigadores.

A visita de especialistas em arqueologia confirmou o interesse arqueológico do local. “As evidências artefactuais identificadas englobavam essencialmente fragmentos de cerâmica de fabrico manual, de pastas grosseiras e coloração escura”, refere a citada comunicação, que sublinha ainda terem-se identificado “artefactos líticos, em pedra polida e talhada, designadamente utensílios sobre seixos, moventes de moinhos de vaivém em granito e uma excepcional ponta de seta de base côncava em sílex”.

Interesse do IPA

Os quatro investigadores sublinharam que “a natureza dos vestígios identificados apontou claramente para uma cronologia situada dentro do 2.º milénio a.C. (Idade do Bronze) ou mesmo até de meados do 3.º milénio, se se confirmar a possibilidade de uma ocupação calcolítica”.

O Instituto Português de Arqueologia foi informado dessas descobertas arqueológicas, tendo sido elaborado um projecto de estudo, com a coordenação técnico científico de Isabel Pereira (arqueóloga e ex-directora do Museu de Aveiro). Essa intervenção compreendeu prospecção geofísica, “que identificou uma série de anomalias que podem estar relacionadas com o sítio arqueológico”, e limpeza do perfil da vala. Esses trabalhos permitiram recolher mais espólio arqueológico e identificar algumas estruturas associadas ao povoado. Os autores da comunicação sublinharam que “até ao momento não foi possível determinar os limites deste arqueo-sítio. No entanto, a distribuição espacial dos materiais encontrados à superfície e ao longo da vala de drenagem, permitiram definir áreas de ocupação humana bem localizadas”.

Os quatro investigadores concluíram que “a detecção de um habitat desta cronologia constitui, sobretudo nesta região em que os vestígios da Pré-história recente são muito escassos, uma descoberta de grande relevância científica, podendo e devendo potenciar enormemente os estudos regionais de carácter arqueológico e até de reconstituição paleo-ambiental”.

Cardoso Ferreira