Na semana passada, o mundo católico foi abalado com a notícia, dada em primeira mão pela revista Jesus, editada em Itália pelos Paulistas, que, nas instâncias próprias da Santa Sé, está a ser estudado e debatido um documento que imporá trinta e sete restrições, tidas como abusos na prática dos sacramentos e, designadamente, da celebração da missa. De resto, tal documento está a ser aguardado desde a publicação da encíclica papal A Igreja vive da Eucaristia, publicada na última Quinta-feira Santa, onde o Papa referia a publicação deste documento.
Muitos dos grandes órgãos de comunicação pegaram na notícia e divulgaram-na com variados comentários sobre a mesma. No geral, e a partir do que foi divulgado como o conjunto de proibições que ainda estão em estudo, as reacções negativas não se fizeram esperar.
Com efeito, há um conjunto de abusos de que a Santa Sé tem conhecimento e que afectam a verdade essencial do próprio sacramento, que se têm vindo a divulgar cada vez mais por esse mundo fora. Naturalmente, há que pôr cobro a tal situação. Tal é o caso, entre outros, de substituir leituras da Sagrada Escritura por outros textos, mesmo que do Concílio ou poemas, em lugar do salmo. Por muito belos que sejam os textos, não é neles que se funda a nossa fé, mas, apenas e só, na Palavra de Deus, ali celebrada naquele sacramento, como acontecimento pascal de salvação.
Outras situações referidas pela imprensa, a serem objecto de restrição ou de clara proibição, como referem as agências noticiosas, deixa um sabor amargo a desilusão. Efectivamente, o Concílio Vaticano II pretendeu um aggiornamento, um pôr-se em dia com a vida contemporânea, onde a Igreja tem de ser anúncio e realização da salvação que Cristo lhe confiou. Além do mais, toda a liturgia, ao longo dos vinte séculos de vida da Igreja, assenta num princípio de inculturação com os povos e civilizações. Daí, as numerosas famílias litúrgicas e, dentro delas, os variadíssimos ritos, que manifestam essa riqueza cultural própria de cada povo. Bater palmas em momentos significativos de certas celebrações, dançar (tão próprio da cultura africana) ou outras manifestações próprias da cultura dos povos não afectam a essência do sacramento. Que o serviço do altar possa também ser desempenhado por mulheres não afecta a essência do sacramento. Mas, segundo as notícias dos meios de comunicação, estes e outros aspectos, controversos e polémicos, têm estado a gerar forte contestação ao documento que, sublinhe-se mais uma vez, ainda não é do conhecimento público.
A ser verdade o convite que o documento fará aos leigos, diáconos, presbíteros e bispos para denunciarem todos os abusos que venham a notar, parece ser algo impensável nos dias de hoje, sobretudo naqueles países que ainda há bem pouco tempo estiveram sujeitos a polícias políticas e à delação anónima. Qualquer fiel da Igreja teve sempre assegurado o direito que lhe assiste de denunciar à competente autoridade eclesiástica os desmandos e abusos dos seus pastores. Fere as nossas sensibilidades que um tal documento ponha preto no branco um convite desta natureza.
É difícil poder fazer um juízo de valor mais pormenorizado sobre algo que não nos está acessível e cujo teor não se conhece em pormenor. Contudo, de Roma, espera-se um documento equilibrado e ponderado e não um documento polémico. E espera-se, sobretudo, que as instâncias romanas ouçam os episcopados e que não imponham restrições que, pela sua natureza, não afectam a essência e dignidade sacramental.
