Notas Litúrgicas F) A Páscoa, chave da festa cristã
Se há alguém que tem motivos para fazer festa é a comunidade cristã. Todos os valores que se podem pensar como apetecíveis são precisamente o objecto da nossa fé e da nossa celebração: a aliança com Deus, a salvação e a felicidade que Ele nos dá, a verdadeira libertação de toda a escravidão, a vitória de Cristo contra o mal e a morte, a visão positiva da criação cósmica e da pessoa humana, a perspectiva de felicidade escatológica….
Mas, sobretudo, a chave da festa cristã é a Páscoa de Jesus, o Senhor. Os cristãos centram todo o calendário das suas celebrações no mistério da entrega pascal de Cristo na cruz, o acontecimento básico e constituinte da sua identidade, no qual se realizaram de uma vez para sempre a libertação, a reconciliação, a nova aliança, a graça e a vitória da vida… Se toda a festa é um «sim» à vida, a Páscoa é a concentração mais densa da vida. «Onde está, ó morte, a tua vitória?» é o grito, entre irónico e triunfal, de Paulo, que a comunidade cristã faz seu. O cristão vê tudo – desde o cosmos até à sua própria história pessoal e colectiva – como um descolar da Páscoa de Cristo. Tomando a ideia de S.to Atanásio, a ideia-força de Taizé foi, muitas vezes: «Jesus ressuscitado faz da vida humana uma festa contínua.» E, dentro desta visão global, cada uma das celebrações que chamamos festas as entendemos em chave pascal: não só a Páscoa, ou Ascensão, ou Pentecostes, mas também o Natal, a Epifania e cada um dos sacramentos; desde o domingo semanal até às próprias festas da Virgem Maria e dos Santos, momentos privilegiados que marcam toda uma vida compreendida como dom e graça. Os antigos falavam de risus paschalis, o riso pascal: este poderia ser considerado como o contexto global de toda a festa cristã.
Se toda a festa é actualização de um acontecimento passado essa é precisamente a dimensão essencial da festa cristã ou da celebração de todo o sacramento: o acontecimento único e irrepetível, a Páscoa, torna-se presente e acessível para que o cristão participe nela. A festa da Ascensão é festa de Cristo mas também nossa. O baptismo é entendido por Paulo como uma celebração na qual todos os cristãos foram con-crucificados, con-sepultados, con-ressuscitados e con-sentados à direita de Deus com Cristo. A sua Páscoa no-la comunica pelo seu Espírito precisamente na celebração festiva, sacramental ou do ano litúrgico. E assim se cumpre a dinâmica entre o in illo tempore (naquele tempo) e o hodie (hoje) da festa celebrada. Com isso se regenera continuamente a nossa identidade como comunidade cristã. Como dizia S. Leão Magno, na festa do Natal: «celebramos o natal de Nosso Senhor: celebramos as nossas próprias origens.»
Por isso, é explicável a centralidade da eucaristia em cada festa cristã: ela é a concentração mais expressiva do acontecimento pascal – o Cristo «entregue por nós» –, a celebração do presente – uma comunidade que acolhe a palavra, que canta e louva, que celebra, come e bebe, entrando em comunhão de vida com o seu Senhor – e se projecta para o futuro com esperança comprometida – «até que venha». A festa cristã encontra a sua melhor expressão na aclamação: «Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição. Vinde, Senhor Jesus.»
SDPL
