Desnorteio preocupante

Basta prestar alguma atenção ao que se passa à nossa volta e frente aos nossos olhos, para que cresçam sempre mais as preocupações de qualquer cidadão atento, tal a desproporção entre os acontecimentos e a sua mediatização.

Esmiúça-se tudo, de modo doentio, até ao tutano. Mais importantes que as pessoas são as audiências das televisões e a tiragem dos jornais. Nos últimos dias, com a saída do Governo de dois ministros, o termo da prisão preventiva de um político conhecido, os estudantes universitários em cortejo pelas ruas das cidades com gritos de contestação, deu-se a impressão ao País de que nada mais importante se estava passando. Um clima de histerismo.

Horas seguidas de transmissão a repetir a mesma coisa, julgamentos em praça pública, ferroadas de sangrar em pessoas que parece que só fizeram disparates em toda a sua vida, juízos farisaicos formulados e alardeados por quem não pode atirar pedras a ninguém, ataques e contra-ataques a tempo e fora de tempo a pessoas e a instituições, insinuações até dizer basta, perturbação do clima de serenidade a que temos direito, um nunca acabar de intervenções, de mesas redondas, de comentadores de turno. Nem sempre tudo limpo, mas com pretensão de um bem que leva escondido vinganças serôdias e despeitos que não esquecem.

Não se passou ainda a página e novas coisas velhas se vêem no horizonte.

Venho de uma reunião onde ouvi, de gente sofrida, uma ladainha de misérias que atingem famílias que se cansaram de o ser. Abro o jornal e vejo que, em vinte freguesias de um concelho, que se tem considerado acima da média económica, alastra o alcoolismo, a droga, a prostituição, o analfabetismo, a dependência dos idosos, a instabilidade profissional, o trabalho infantil, o abandono da escola, a desorganização familiar. Vejo responsáveis de instituições de solidariedade preocupados com os mil problemas das mesmas e com outros que lhes trazem diariamente os que delas beneficiam. Comparo a desproporção do que gasta o Estado com alguns cidadãos pouco responsáveis e o que não chega ou tarda a chegar, para atender a situações de primeira necessidade… E só vejo a grande comunicação social preocupada com isto, se pelo meio há algum escândalo ou algo que cheire a tal.

Nos areópagos da política, mais palavras que ideias. Na compreensão dos problemas, mais emoções que realismo. Na ordenação da vida e no que toca a cada um, mais queixas que compromissos e esforço próprio. O desnorteio é real. Sem o respeito e colaboração de todos, não há Governo que governe.