Poço de Jacob – 33 Um dia, nos meus tempos de formação na Aliança de Santa Maria, ao arranjar o jardim com a fundadora, quebrei, por descuido, um galho de uma planta. Chamaram-me a atenção e ela disse-se algo que não entendi de imediato: “Se não tiveres cuidado com as flores, não saberás trabalhar com as almas”. Mais tarde, explicou-me que cada pessoa é como uma planta preciosa e o padre é o jardineiro; que no Jardim de Deus também os cardos são bonitos… e que não há ervas daninhas que não sirvam para adornar. Por isso, na formação do meu seminário de Toledo, em Espanha, cada seminarista era obrigado a ter uma tarefa para conservação da casa e desenvolvimento da comunidade. Pedreiro, carpinteiro, electricista, mecânico, cabeleireiro, bibliotecário, jardineiro… A formação integral, até de um filho, prepara-nos para sermos pobres ou ricos, para vivermos na abundância ou na pobreza, como o fabricante de tendas que foi S. Paulo.
Um filho não se manda só para a escola. Dividem-se tarefas em casa, desde o lavar a louça até aparar a relva, aspirar o pó ou pintar uma porta. O mesmo se passa no cuidado para com os animais. Um dia, conheci uma religiosa que atirava os gatos filhotes do quinto andar do convento. Cruel. Não sabia do sentimento da criaturinha que geme ansiosa pela sua libertação, como diz S. Paulo. Não sabia que um cão abandonado ou a passar fome implica muita angústia naquele ser delicado que só quer estar connosco; que quem é cruel com a natureza, não pode dizer que ama o Dono dessa natureza; que o amor ao próximo implica homens, animais e plantas; que a ecologia é evangélica e não só franciscana.
Por isso, quando nos educamos no respeito pela natureza e ao não permitirmos que nossos miúdos cacem passarinhos para os matar por prazer, estamos a educar homens para respeitarem os outros homens. Por isso, cada pessoa tem a delicadeza de uma flor. E temos de lidar com ela sabendo o valor de cada flor, de cada ser, de cada vestígio de Deus nas obras da sua criação. Deus não anula a nossa natureza, mas aperfeiçoa-a e desenvolve-se com a sua graça. E no homem, padre ou não, quanto mais perfeita e equilibrada, mais apta para a santidade que move e transforma o mundo e liberta o cosmos.
Pensa, por isso, que também tu és uma flor desse enorme jardim. Consola-te com aquela magnífica afirmação de Nossa Senhora em Fátima, a 13 de Julho de 1917: Os que me amarem serão como flores que eu colocarei no trono de Deus Pai para o adornar.
O teu destino é um Jardim. Não estás chamado a ser só semeador da palavra, mas jardineiro de Deus e a encantar com a tua beleza e o teu perfume os corações de todos os que te olham e sabem que tua seiva é o Espírito Santo. Transportas, pelo Baptismo, o suave odor de Cristo.
P.e Vitor Espadilha
