Revisitando o Vaticano II Face à incoerência, da parte de muitos cristãos, entre o saber doutrina e o viver a fé, face ao crescente relativismo, que recusa a verdade objectiva, face à consequente “irreverência” em relação ao magistério da Igreja, é indispensável aprofundar o significado do sentir (ou sentido) da fé – sensus fidei – como uma participação de toda a Igreja no aprofundamento e desenvolvimento do conteúdo da fé. Muitas vezes, confunde-se o sentir da fé com sentimentos, conveniências ou opiniões individuais – o que é profundamente errado.
Nada melhor do que fazer o percurso deste conceito teológico com Rino Fisichella, eminente teólogo e bispo auxiliar de Roma, para quem o conceito é tão antigo como a Igreja, pensado e definido ao longo da tradição teológica, até se tornar um ponto central na teologia do Vaticano II.* Citamos o texto, com breves anotações.
“Em quase todos os documentos do concílio é fácil encontrar o termo ou expressão semelhante. Todavia, há duas passagens relevantes, entre as mais significativas. A primeira, no n.º 12 da Lumen Gentium. Descrevendo o sentido da fé, o concílio ensina que é um dom sobrenatural do ‘Espírito de verdade’ dado a toda a Igreja e, nela, a todo o crente, com o objectivo de ‘receber’ a Palavra de Deus e aderir de modo indefectível à revelação, para penetrar sempre mais na verdade de fé e vivê-la coerentemente.
O segundo texto encontra-se no n.º 8 da Dei Verbum; aqui, o sensus fidei aparece, implicitamente referido, como um dos três elementos que, juntamente com a teologia e o magistério, constitui um critério para o aprofundamento e o desenvolvimento do conteúdo da fé. Esta perspectiva do concílio é fruto de um longo caminho que se identifica com a própria história da Igreja.
O sentido da fé insere-se, antes de mais, no horizonte peculiar da compreensão da fé como chamada ao seguimento que torna o discípulo sempre mais próximo do mestre. É neste sentido que já no Novo Testamento encontramos referências como sensus Domini (1Cor.2,16), ‘olhos iluminados do coração’ (Ef.1,18; cf. Jo.14,17), ou ‘inteligência espiritual’ (Col.1,9).”
Fruto da graça e da acção do Espírito, o sentido da fé transporta-nos a uma forma de conhecimento para além da razão. Situa-se na ordem da vontade de amar, do acreditar e confiar-se a outro… Só desse modo se acolhe e estima o mútuo fluxo entre a teologia que reflecte e propõe, o magistério que discerne e ensina, o sensus fidei que vive e credencia.
(cont. no próximo número)
Querubim Silva
* Cf. Rino Fisichella, Noi crediamo, ED, Roma 1993, pp. 90-91.
