Razão e fé, verdade e caridade, ser humano e Deus

A caridade está no princípio, no meio e no fim do agir do cristão. E também desta encíclica.“É a forma propulsora principal para o verdadeiro desenvolvimento de cada pessoa e da humanidade inteira”, escreve Bento XVI no n.º 1 da CV. “Só através da caridade, iluminada pela luz da razão e da fé, é possível alcançar objectivos de desenvolvimento dotados de uma valência mais humana e humanizadora. A partilha dos bens e recursos, da qual deriva o autêntico desenvolvimento, não é assegurada pelo simples progresso técnico e por meras relações de conveniência, mas pelo potencial de amor que vence o mal com o bem (cf. Rm 12, 21) e abre à reciprocidade das consciências e das liberdades” – acrescenta o n.º 9.

Se a verdade, o outro termo do título desta encíclica, é uma aspiração intrínseca ao ser humano, por muito que seja ignorada, apagada e subvertida (por correntes filosóficas, por interesses, por incapacidades) e é condição para o desenvolvimento, a caridade é o que dá fundamento e finalidade ao desenvolvimento e à própria existência humana. Se separarmos a verdade de caridade, a caridade cai no sentimentalismo, e a verdade cai no absurdo, no vazio, na impotência. O mesmo se passa no campo tecnológico. “Fascinada pela pura tecnologia, a razão sem a fé está destinada a perder-se na ilusão da própria omnipotência, enquanto a fé sem a razão corre o risco do alheamento da vida concreta das pessoas” (n. 74).

A encíclica termina, pois, pedindo uma nova aliança entre razão e fé, verdade e caridade, desenvolvimento material e espiritual, ser humano e Deus. Fiquemos com algumas afirmações que vão neste sentido:

“Sem Deus, o homem não sabe para onde ir e não consegue sequer compreender quem seja. Perante os enormes problemas do desenvolvimento dos povos que quase nos levam ao desânimo e à rendição, vem em nosso auxílio a palavra do Senhor Jesus Cristo que nos torna cientes deste dado fundamental: «Sem Mim, nada podeis fazer» (Jo 15, 5), e encoraja: «Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo» (Mt 28, 20)” (n.º 78).

“O homem não é capaz de gerir sozinho o próprio progresso, porque não pode por si mesmo fundar um verdadeiro humanismo” (n.º 78).

“O desenvolvimento tem necessidade de cristãos com os braços levantados para Deus em atitude de oração, cristãos movidos pela consciência de que o amor cheio de verdade — caritas in veritate –, do qual procede o desenvolvimento autêntico, não o produzimos nós, mas é-nos dado” (n.º 79).

J.P.F.

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