Bento XVI: empresa personalizante

Questões Sociais Na encíclica «Caritas in Veritate», figura um pensamento estruturado acerca da empresa (cf., em especial, os nºs. 41-42 e 46-47). Surgem aí três linhas de orientação: A empresa como realidade pessoal; a diversidade de empresas; e o imperativo de regulação concertada. Estas linhas podem sintetizar-se na ideia de empresa como realidade personalizante.

À luz da encíclica (e do precedente pensamento social católico), «o espírito empresarial, antes de ter significado profissional, tem um significado humano; está inscrito em cada trabalho (…)» (nº. 41): O espírito empresarial é inerente a todo o trabalho humano; por isso, a empresa será tanto mais válida quanto mais possibilitar o desenvolvimento das pessoas que nela trabalham ou com ela se relacionam. A encíclica salienta a diversidade de empresas quanto aos seus objectivos de lucro e solidariedade (cf. os nºs. 38, 40-41 e 46): No conjunto das empresas privadas (com fins lucrativos), incluem-se as que se limitam a esse objectivo, a par das que assumem as suas responsabilidades sociais, tanto no interior como em relação ao exterior; nas entidades sem fins lucrativos (empresas sociais) figuram as que apenas prestam os seus serviços sociais, com maior ou menor apoio do Estado, e as que realizam actividades produtivas para o mercado. Estas actividades são perfeitamente comparáves com as das empresas privadas; nota-se, porém, que não pode haver distribuição de «excedentes» em função do capital.

A terceira linha de orientação da encíclica centra-se no imperativo de regulação concertada, entre os diferentes tipos de empresas, e entre todas estas e as restantes entidades, incluindo o Estado (cf. os nºs. 41 e 46). A encíclica vai até ao ponto de afirmar a necessidade de «uma revisão global do desenvolvimento», a favor da promoção humana (nº. 23; cf. nº. 21).

Ao contrário do que o nosso pessimismo imagina, são inúmeras as empresas privadas que têm preocupações sociais, e são, igualmente, inúmeras as empresas sociais com preocupações económicas, para a sua própria viabilidade e para a criação de empregos. Falta, porém, o encontro cooperante entre todas elas; nas paróquias, tal como nos movimentos laicais, poderia ser promovido este encontro. Se ele se verificasse, estaria facilitada a cooperação a favor de um desenvolvimento mais humano, conciliador dos objectivos sociais e da viabilidade económica.