A vida em sociedade exige, sempre mais, que as relações humanas e as exigências do bem social, comum e ao alcance de todos, assentem em princípios indiscutíveis, dos quais flúem a melhor compreensão e aplicação dos direitos humanos fundamentais e os comportamentos pessoais e públicos. De contrário, vive-se em desconfiança mútua, multiplicam-se favores segundo simpatias, multiplicam-se interpretações unilaterais, os problemas e a sua solução apreciam-se segundo ângulos contraditórios, gera-se, por fim, a irresponsabilidade, porque se calam e se apagam os deveres.
Ou se aceitam princípios ou a vida em sociedade não tem sentido, nem é possível. Não apenas na sociedade alargada, mas também na família e nas outras formas de vivência em comum, seja a comunidade de livre opção, seja de necessidade profissional ou qualquer outra. A agressividade que se respira, a imunidade moral que se reivindica, o dedo apontado aos “conspurcados” por parte dos que se julgam “puros e impolutos”, a intolerância que quer direitos de cidadania, a fuga a deveres normais de cidadania, são sinais da ausência ou do desprezo por princípios morais básicos, comummente aceites.
Falemos, por exemplo, do valor universal, constituído em princípio de convivência sã, que é “o respeito pelo outro”. O outro, pelo que ele é em si mesmo, com a sua dignidade inalienável, qualquer que seja a sua raça, cor, opção política ou religiosa. Se se aceita o princípio da igual dignidade de todos, por natureza, não por outorga de outrem, o outro é um como eu. Assim aceite o outro, é possível progredir, remediar erros cometidos, integrar no conjunto os valores de cada um, humanizar as relações, reconhecer o valor da compreensão, dar alguma graça ao presente e ao futuro de cada um e de todos.
A pobreza progressiva da sociedade, também tem a ver com a marginalização que se provoca, os compadrios que se fomentam, os rumores de meia verdade que se espalham, a intransigência farisaica em que se vive, os rótulos de preconceito que se colam.
Há direitos que se afirmam e logo se sonegam. Há pessoas que canonizam e logo diabolizam. Há interesses comuns, que logo se destroem, por outros emergentes, pessoais ou de grupo. Há democratas pela manhã que, ao fim do dia, viram ditadores.
Uma sociedade de humores ou de interesses, fica eticamente vazia, sempre que não se respeitam nem se aceitam princípios universais humanizantes, que sejam referência para todos e garantia de sentido na vida de cada um.
Perde-se facilmente a alegria de viver e de conviver, quando não há referências comuns mobilizadoras. Então, as interrogações que acordam, não podem deixar de se formular.
Que educação para a vida? Que família, garante futuro de quem tem direito a tê-lo? Que política para o bem comum, que seja, também, ambiente normal de convivência sã? Que meios de comunicação social, serviço à promoção das pessoas, das relações humanas, da verdade, dos comportamentos e dos valores que dão tom positivo ao viver social?
Na nossa sociedade há mais gente honesta e séria, que desonesta e mirabolante. Porém, quem mais aparece não são os protagonistas de uma sociedade com princípios. O mal de muitos destes será, talvez, instalarem-se comodamente numa consciência de boas pessoas, caírem na omissão de não assumir compromissos sociais, serem mais críticos que militantes, fecharem-se no seu mundo, porque acham o outro irrespirável e fútil. Esquecem-se, porém, que no seu, há também sementes do outro, e este também é seu, e que há sempre quem se aproveite do comodismo e das omissões que não deviam existir.
