“Um candidato com indiferentismo religioso não teria qualquer hipótese de ser eleito”

Hermínio Rico, jesuíta director da revista Brotéria Hermínio Rico, padre jesuíta, viveu nove anos nos Estados Unidos, onde se especializou nas questões da relação Igreja/Estado. É director da revista Brotéria e tem leccionado na Universidade Católica (Lisboa) disciplinas na área da liberdade religiosa e das relações Igreja/Estado. Observador atento da realidade norte-americana, ajuda-nos nesta entrevista a perceber porquê as questões religiosas obtêm tanto eco na vida política dos Estados Unidos.

Correio do Vouga – Tanto na Europa como nos Estados Unidos há separação Igreja/Estado. Como explicar a discussão tão forte à volta da religião dos candidatos, algo de impensável na Europa?

Hermínio Rico – O tipo de separação entre a Igreja e o Estado é historicamente bastante diferente nos Estados Unidos e na Europa (sobretudo na Europa Latina). Enquanto cá, na sequência da Revolução Francesa, foi algo imposto contra a Igreja, com muita agressividade e procurando excluir a religião da vida pública, nos Estados Unidos as provisões constitucionais tinham como objectivo defender a religião – muitas Igrejas cristãs que tinham sido perseguidas na Europa – de qualquer interferência do Estado. Em vez de exclusão, o objectivo era a liberdade de acção das Igrejas. É assim que a presença e importância da religião na vida pública continuam a ser muitíssimo mais importantes nos EUA, um dos países do mundo de maior prática religiosa regular. De tal modo que um qualquer candidato que se apre-sentasse com uma posição de indiferentismo religioso não teria qualquer hipótese de ser eleito; o agnosticismo ou ateísmo assumidos são marginais. A vivência da religião nos EUA, em muitos aspectos, não passou pelo processo de secularização que a Europa viveu a partir do século XVIII.

Existe o “voto católico” nos EUA?

Não propriamente. Os católicos americanos estão, hoje em dia, tão divididos nas suas opções políticas como o resto da população. Tradicionalmente, os católicos votavam nos Democratas, porque eram imigrantes pobres, a maioria da classe média operária, e o Partido Democrata estava muito ligado à defesa dos seus interesses. A partir dos anos 80, os católicos alcançaram plena integração social (são hoje socialmente a confissão religiosa mais afluente dos EUA) e passaram a seguir outras motivações na escolha do seu voto. Talvez ainda haja alguma tendência para favorecer os Democratas, mas com pouco signi-ficado eleitoral. Com Reagan, muitos católicos passaram para o campo dos Republicanos. As divisões seguem hoje outras linhas de demarcação e há católicos em todos os lados.

John Kerry é católico, mas tem sofrido ameaças de excomunhão por parte de bispos, devido a apoiar a livre escolha quanto ao aborto – o que favorece George W. Bush, que por outro lado tem um programa político desfavorável para os mais pobres, é adepto da pena de morte e, por exemplo, não ratificou o Protocolo de Quioto. Há alguma questão moral decisiva na escolha de um candidato?

A questão do aborto polarizou de tal maneira a sociedade americana nos últimos 30 anos que hoje se tornou um assunto obsessivo para muita gente, e sobre o qual só há posições extremas cada vez mais irreconciliáveis. As tentativas de procurar equilíbrio e mediação não têm força e não se vê saída para o impasse e a continuada agressividade mútua. Muita gente (mesmo dentro da Igreja Católica e até ao nível da hierarquia) acabou por focar-se tanto nesta questão que fez dela o decisor único para tudo. É evidente que se trata de uma questão da maior importância, mas não devia ser vista como o único critério para escolher candidatos e políticas; há outros pontos de, pelo menos, igual gravidade moral e social. Durante algum tempo, houve, da parte de alguns bispos católicos, nomeadamente do anterior Arcebispo de Chicago, o Cardeal Bernardin, uma tentativa de integrar a questão da defesa da vida num contexto mais vasto, que, para além do aborto, incluísse também as questões da pena de morte, da guerra, da pobreza, da justiça, etc. Hoje em dia, essas vozes perderam força.

A posição dos bispos católicos é pró-republicana, pró-Bush?

Tem havido cuidado em não explicitar esse apoio, mas parece-me que em muitos pronunciamentos há um claro favorecimento. Exemplo típico é o documento Catholics in Political Life, aprovado pela assembleia plenária dos bispos em Junho deste ano. Começam os bispos por dizer que “nós temos o dever de ensinar acerca da vida e da dignidade humanas, do casamento e da família, da guerra e da paz, das necessidades dos pobres e dos requisitos da justiça”. Mas logo a seguir afirmam que “hoje continuamos o nosso esforço de ensino sobre uma matéria de importância única…” E, depois, todo o documento é apenas e só sobre o aborto e o dever dos políticos católicos procurarem mudar o ordenamento legal neste aspecto…

John Kerry é o segundo católico candidato a presidente dos EUA, em mais de 200 anos, num país que actualmente tem 65 milhões de eleitores católicos. Por que é que tão poucos católicos chegam ao poder?

Não é bem verdade. Até agora, apenas houve um presidente católico, J. F. Kennedy, mas tem havido muitos mais candidatos. E, aos mais altos níveis da política nacional, há muitos católicos a ocuparem lugares importantes. Se, na primeira metade do século XX, havia um preconceito contra os católicos, acusados de se submeterem a um Estado estrangeiro (o Vaticano!), com a eleição de Kennedy e o Vaticano II (a declaração sobre a liberdade religiosa), isso ficou resolvido e hoje não há, dum modo geral, discriminação, nem obstáculos a que os católicos participem na vida política. Provavelmente, os maiores embaraços que têm de enfrentar, relacionados com a sua fé, vêm hoje de alguns sectores da própria Igreja Católica, como se tem visto com John Kerry.