Pe. Pedro José, em entrevista depois de três anos de trabalho missionário no Brasil Pedro José Correia, 32 anos, padre da diocese de Aveiro, passou os últimos três anos no Brasil, em trabalho pastoral com os missionários das Sociedade Boa Nova.
Chegou à cidade de Fortaleza, no dia 10 de Setembro de 2001. Falava-se, na altura, do assassinato de um grupo de portugueses que tinha ido passar férias para essa cidade. No dia seguinte, momentos antes de apanhar o segundo avião, que o levaria para S. Luís do Maranhão, viu pela TV, no quarto do hotel, o embate dos aviões nas torres de Nova Iorque. O mundo pode ter mudado nesse dia. A vida do Pe Pedro, por razões diferentes, de certeza. De férias em Portugal, mas pouco – as solicitações têm sido muitas –, concedeu ao Correio do Vouga uma entrevista-balanço destes três anos. Em Janeiro de 2005 regressará ao Brasil, para mais dois anos e meio de trabalho missionário.
Como foi o seu trabalho no Brasil?
O acordo missionário era trabalhar com mais três padres [Neves, Casimiro e Tavares, missionários portugueses da Sociedade Boa-Nova] em Mata Roma e Chapadinha, duas cidades do interior, mas com muito de urbano. Estive lá três meses, de Setembro a Dezembro. Em Dezembro houve uma ordenação e uma reunião regional de padres para avaliar o trabalho pastoral. Um dos pontos de debate era a vida de seminário. Como era necessário renovar a equipa, votaram em mim na segunda votação… Digo a brincar que fui traído. Era uma coisa transitória. Havia problemas graves no seminário. Estive lá o ano académico de 2002, de Janeiro a Dezembro, em Belo Horizonte, Estado de Minas Gerais. Em Janeiro de 2003 regressei ao trabalho, até Outubro de 2004, em Mata Roma e Chapadinha.
Em que consistia o trabalho nessas paróquias?
Integrei-me na equipa. Estabeleceram-se algumas prioridades. A paróquia sentia muito a necessidade de pôr de pé uma pastoral da educação. Fiquei com essa responsabilidade. Já tinha havido um trabalho do professor Jorge Carvalhais [de Calvão, Vagos, e colaborador do CV]. Por lá passaram leigos missionários, o Pe Nestor, o Pe Martins, oito meses… O Jorge Carvalhais esteve lá um ano e meio. Encaixei nesse projecto de pastoral educativa, sendo ao mesmo tempo uma espécie de assessor na pastoral da juventude.
Como é a pastoral educativa?
Nós queríamos chegar ao âmbito escolar, mas era mais um trabalho com professores. Eu levava daqui a referência do MCE (Movimento Católico de Estudantes), mas lá era um trabalho com professores: criar uma consciência de grupo, de professores católicos, mas aberto ao espírito ecuménico; reuni-los para reflectir e ver os problemas do meio, como poderíamos ter uma intervenção. Também havia iniciativas com professores ao nível da paróquia; dávamos a cara dizendo que era pastoral da educação da paróquia.
As outras religiões estavam presentes?
Outras confissões cristãs, sim. A religião indígena já foi muito apagada, mas outras confissões como a igreja metodista a presbiteriana – com estas duas o diálogo é mais fácil –, a IURD (Igreja Universal do Reino de Deus), até à última moda evangélica e protestante que também lá entra, especialmente em Chapadinha. Curiosamente, Mata Roma teve muito a assistência de um pastor evangélico, enquanto o padre católico só lá ia uma vez por mês. Havia uma forte tradição protestante. Actualmente, por exemplo, tem a igreja católica, a casa das Irmãs e logo a seguir um templo da IURD, que é tão grande como o católico.
Há bom relacionamento?
Sim. Está um templo ao lado do outro, e há bom relacionamento. Até procuramos não fazer barulho para não perturbar os outros, quando as celebrações coincidem, ao domingo à noite. Como a minha presença lá, passou a haver missa ao domingo de manhã por causa das catequeses, uma missa diferente, com a criatividade da catequese.
Vivia com a comunidade?
Sim, éramos uma comunidade de quatro padres em Chapadinha: eu, o Pe Neves e o Casimiro, ambos há 25 anos no Brasil, e o Padre António Tavares. Mata Roma fica a 38 km de estrada boa.
Como era o vosso sustento económico?
A paróquia de Mata Roma, podemos considerá-la pobre. Mas a outra até é considerada na diocese a mais rica. Não há indústria em Chapadinha, mas tem muitos serviços e acaba por ser uma paróquia importante. Há até quem refira que lá é que devia estar a sede da diocese e não no Brejo, que é mais uma referência histórica, um pouco como em Portugal com a diocese de Bragança-Miranda. Estamos a fazer força para que o bispo venha para Chapadinha. Brejo fica na confluência de um rio e não tem saída. Chapadinha fica no triângulo entre S. Luís, Fortaleza e Teresina, três capitais de estado. Chapadinha é uma paróquia rica. Nós implantámos lá uma coisa que se vê muitos nas igrejas evangélicas: o dízimo. É uma realidade nova, o dízimo católico, mas as pessoas não se escandalizam. Avançámos na paróquia e já se consolidou. O dízimo dá 3000 a 3500 reais por mês. O ordenado mínimo é 260 reais. Nenhum dos padres – a meu ver, mal – recebe ordenado. A paróquia suporta as despesas.
Quanto dão, ou são aconselhadas a dar, como dízimo?
O que podem dar. Não se trata dos dez por cento. O dízimo é um extra, porque as pessoas continuam a pagar as taxas, e isso ainda é a receita maior. Não as anulámos. Algumas pessoas acham que dando o dízimo não deviam pagar mais nada. E caminhamos para isso, mas como aquilo não é um “toma lá, dá cá”… A paróquia de Mata Roma recebe 700 a 800 reais de dízimo.
Como avalia estes três anos no Brasil?
Foram três anos de muito stress, de algum esgotamento físico.
Pesa menos?
Não quero dizer o meu peso, mas peso menos três quilos. Foram três anos stressantes, de certa forma inibidores. Às vezes sentia que podia dizer mais qualquer coisa. Mas procurei seguir um princípio básico de quem vai para uma nova cultura: “Cala-te, ouve” – porque três anos até pode ser pouco. Às vezes há a tentação de dar já a resposta, ou “nós é que trazemos a receita feita”. É a velha questão: eu não vou anunciar Deus. Deus já lá estava à minha espera, quando eu cheguei, fosse na expressão católica ou noutra expressão religiosa qualquer. Estava na cultura do povo. Tinha que sentir isso.
Por outro lado, lá senti muito a necessidade de planejamento pastoral.
Foram também três anos de amadurecimento pessoal. Pela experiência humana, pelo contacto com o sofrimento das crianças, pelas estruturas de pecado. Senti-me impotente para resolver muitas situações, mas foram anos de amadurecimento. Como experiência humana foi muito enriquecedor. Senti a passagem dos trinta anos lá e foi muito significativo. De certa forma há algo de geracional, um antes e depois. Isso marcou. Uma espécie de revisão de vida, dos sonhos, os projectos…
Referiu as estruturas de pecado…
Tem a ver com a corrupção, a política, o sistema económico… Má gestão dos políticos, na base do marketing e do populismo. Relações político/eleitorais perversas, que criam subserviência. Assisti a uma campanha eleitoral e verifiquei isso mesmo. Ando a ler uma história do Maranhão e parece que o espírito entre o senhor dos engenhos do açúcar e o escravo ainda está presente… É um espírito que demora séculos a desaparecer.
Uma vez fui celebrar missa ao interior e na missa um dono da terra deu-me o abraço da paz. Passados uns dias surgiu no jornal que ele tinha sido o mandante de um assassínio de um lavrador… Há perversões deste género. Ou o assassinato de um chefe da polícia que era íntegro. Ou pontes que caem e que não são reparadas. Ou, se se constrói uma ponte substituta, há alguém que se indigna e deita fogo. Além de que, por exemplo, para arranjar um visto para uma religiosa é necessário recorrer a algum político conhecido.
A vida pastoral tem diferenças?
Três coisas diferentes. Uma é a novena: nove dias consecutivos, para preparar a festa do padroeiro. Todas as noites há eucaristia ou celebração da palavra; há temas sobre cate-quese, liturgia ou os mandamentos, ou sobre S. Francisco, S.ta Teresa… Escolhe-se cada dia um aspecto biográfico e trabalha-se com a comunidade. Se calhar isto é pré-conciliar, mas a partir de uma religiosidade popular, evangeliza-se com novos métodos.
Também se valoriza muito a espiritualidade das primeiras sextas-feiras, do Sagrado Coração de Jesus. Os jovens, por exemplo, aderem à proposta da primeira quinta-feira do mês, com confissões individuais ou celebrações penitenciais comunitárias com absolvição geral. Lá é perfeitamente consensual.
Outra coisa importante no Brasil é a Campanha da Frater-nidade, na Quaresma. Envolve todo o Brasil e cria unidade nas dioceses. Tem sempre um cariz social, interventivo, questionador. A última foi sobre a “Água, fonte de vida” – teve a ver com ecologia, com o modo como cui-damos dos rios, aprender a não desperdiçar água no banheiro, quando se lava os dentes, até à espiritualidade da água, que une todas as regiões… Todo o Brasil falou do assunto. Anteriormente tinha sido sobre os idosos e antes sobre os indígenas.
Quando eu sair do Brasil, quero comprar todos os anos esse guia. Algo muito bem estruturado. A Campanha da Fraternidade move toda a comunidade.
Na quaresma vamos a todos os bairros. Não há visita pascal. Aqui os padres stressam com as confissões. Lá é por causa das visitas aos bairros. Nessa altura sentimos mais o pulsar da vida e os problemas das pessoas, uns estão a chegar do interior, outros estão a construir a casa. É um trabalho muito questionador. Chamamos a isso “pastoral do sentadinho”, porque nos sentamos e conversamos com as pessoas, sem pressa.
A celebração da eucaristia é diferente?
Geralmente têm uma tonalidade mais alegre, com palmas, com cânticos mais animados, com coreografias e danças. É um pouco diferente do que vi em África, em que era mais à base do ritmo e do tambor. Lá, espontaneamente, três ou quatro moças fazem um bailado, uma coreografia, enquanto aqui é sempre mais programado, num encontro de juventude, numa missa do CUFC… Aqui é mais extraordinário. Lá é o ordinário.
