O P.e João Paulo Vaz, ordenado em 1995, é o coordenador Pastoral Juvenil da diocese de Coimbra há 15 anos, assistente do Corpo Nacional de Escutas (Região de Coimbra) há 12 anos e pároco de Outil, Portunhos, Sanguinheira (três paróquias de Cantanhede) e Bom Sucesso (Figueira da Foz) – “paróquias da Bairrada e da Gândara”, esclarece. É ainda Capelão do Hospital Robisco Pais (Tocha, Cantanhede). Tem quatro discos de música de inspiração cristã publicados. No dia 6 de Junho, estará em Aveiro, para dar um concerto no Dia da Igreja Diocesana. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira
CORREIO DO VOUGA – Paróquias, escutismo, pastoral juvenil diocesana. Como consegue conciliar tarefas e missões tão diversificadas?
P.E JOÃO PAULO VAZ – Vou conseguindo. Tenho o hábito, que vem do Seminário e do tempo em que trabalhei no Colégio S. Teotónio [colégio diocesano, em Coimbra], de programar o ano todo logo no início. O ano fica logo trancado, depois resta respeitar o programa. Por outro lado, divido os dias da semana pelas tarefas e responsabilidades. A verdade é que eu sinto que há muitas coisas que eu gostava de fazer e que ficam para trás, principalmente ao nível das paróquias. Aceitei-as com a consciência de que não podia dar tudo o que devia. Não porque não queira, mas por uma questão de disponibilidade e tempo. Mas trabalho com uma alegria grande.
No meio disto tudo ainda tem a vida de artista. Quantos discos já lançou?
Quatro. O primeiro é 2003, “Histórias de um sim”. O segundo, “Caminhos sem atalho”, é de 2005. “Notas de um sonho” é de 2008. E “Um pedacinho desse céu”, que foi lançado em Dezembro de 2009. Todos eles de originais.
Como concilia a música com os trabalhos pastorais?
A música, os concertos, a gravação dos discos ficam para o tempo que sobra. Guardo os meus tempos de folga para a composição e divulgação. Não me tenho dado mal com isto, ainda que fique com alguma insatisfação por não fazer melhor. Penso que se tivesse outra disponibilidade poderia fazer um trabalho de evangelização pela música muito maior.
Os nomes dos discos remetem sempre para um imaginário cristão, talvez até vocacional…
O que está por detrás, tematicamente, tem sempre a ver com a autovalidação da pessoa – ajudar a perceber a riqueza que trazemos dentro, pois somos fruto de um acto criador de Deus. Penso que leva a que cada um reconheça as suas capacidades e possa viver a partir daí. O segundo grande tema é amor ao próximo, a realização de amor com todos os que se cruzam na nossa vida. O terceiro grande tema é a presença de Deus, a relação com Deus, o quanto isso nos eleva e transforma.
Usa a música que compõe nos trabalhos que desenvolve?
Sim e não. Há muita gente que me pergunta por que é que não cantamos músicas minhas nas celebrações da paróquia. Por norma não o faço. Ajudo-as a distinguir entre a música litúrgica e sacra e aquilo que é música de inspiração cristã e música-mensagem. Não considero que as minhas músicas sejam para cantar ou animar a Eucaristia ou outros momentos litúrgicos. Quando muito, podem ser usadas numa Eucaristia particular com jovens ou escuteiros. Algumas das músicas podem ajustar-se a esses contextos muito particulares. Nas situações normais, lembrando o que aconteceu com músicas do Padre Zezinho [padre brasileiro, autor de “Amar como Jesus amor”, por exemplo], eu digo às pessoas: “Não façam. A minha música não é para isso”. Gosto de separar estas duas águas.
Por falar nos jovens, vejo que traz uma camisa de divulgação do encontro de Bento XVI com os jovens, em Madrid, em Agosto de 2011. Coimbra vai estar presente?
Sim. O Secretariado está a dinamizar a diocese para que haja uma grande participação. Todas as experiências que fizemos (Paris, 1997; Roma, 2000; Colónia 2005, Sidney, 2008) trouxeram frutos, quer em termos de grupos, de pessoas, de dinamização das paróquias. Muitos dos jovens que foram nunca mais deixaram de se envolver na sua paróquia. São momentos de graça e de vida em Igreja, de um Deus que entra na vida dos jovens com grande intensidade. Como é aqui ao lado, quase dava para ir a pé. Queremos levar mais de quinhentos jovens.
O que podemos esperar do seu concerto em Aveiro, no dia 6 de Junho?
Será um pouco diferente do que tenho feito nos últimos anos. Até há pouco tinha uma banda de suporte. Desde Janeiro, tenho em cena um espectáculo mais acústico: eu, o meu irmão mais novo e a minha cunhada. Três guitarras, três vozes. Um concerto acústico, dinamizado a partir das cordas. Tem tido muita aceitação. O que podem esperar? Um testemunho de fé pela música, de alegria, de confirmação desta Igreja que somos, que eu amo e que sirvo, uma partilha grande de canções que já não considero minhas mas do mundo inteiro, de quem quiser fazer delas a sua oração, o seu caminho a sua própria experiência. Podem esperar de mim a disponibilidade de padre e de homem.
As pessoas rezam a partir das suas composições?
Bastante. Particularmente a partir deste último trabalho. Os meus primeiros trabalhos eram uma reunião de temas dispersos. No terceiro trabalho há a história de duas pessoas ou dois povos que fazem a experiência da miséria e da descoberta de Jesus Cristo como aquele que nunca os abandona. A partir daí a vida passa a ser uma festa. Este quarto trabalho é a experiência de uma semana de Taizé em oração. Retrata os vários momentos dessa semana. Por isso, ajuda à oração, ao encontro com Deus. Há tempos, quando dei um concerto na Madeira, uma freira que eu não conhecia mostrou-me uma série de apresentações ou meditações [para passa no computador ou projectar] acompanhadas com a minha música. Pediu-me desculpas por ter feito aquilo sem a minha autorização. Mas estava muito bem feito. Era um bom exemplo do uso da minha música com fins espirituais.
“Fiz as minhas primeiras composições no Seminário de Aveiro”
Como têm sido recebidos os seus discos pelo público?
O primeiro CD, por ser novidade, saiu muito bem. Esgotou. Não há mais exemplares. Os outros saíram bem, mas sabemos que a música popular de inspiração cristã ainda não tem grande expressão em termos de venda de discos. Talvez o penúltimo, “Notas de um sonho”, tenha vendido mais, porque foi dinamizado por alguém que quis assumir este trabalho de divulgação e promoção. Os três primeiros discos surgem numa linha de continuidade em termos de orquestrações e de estilos de música. O quarto trabalho é o que o considero ser o filho mais parecido comigo, porque a produção e orquestração foram feitas por mim, muito a partir das cordas. É um trabalho muito mais acústico e, acho, mais parecido comigo.
Que tempo dedica à composição? Como compõe, já que sabemos que toca quase todos os instrumentos?
Não tenho dificuldade em compor. Em qualquer altura, se me concentrar, se me quedar um pouco, componho. Por vezes uso a minha folga, à segunda-feira. No tempo de seminário maior, as criações eram à viola. Já como padre, durante três ou quatro anos, compunha muito a partir das teclas. Agora estou novamente na guitarra. O resultado é distinto. Os trabalhos feitos a partir das cordas têm tido mais aceitação.
Quantos concertos dá por ano?
Cerca de 30. Não é no Verão que há mais concertos. Acontecem principalmente em Dezembro/Janeiro, depois sossego. Em Maio/Junho, como agora, há outro período forte. Os concertos estão muitas vezes ligados paróquias, ajudando e assumindo causas de solidariedade. Geralmente são espaços personalizados, concertos de salão, dinamizados muito antes, por questões solidariedade ou porque faz parte da caminhada do grupo ou paróquia. Isso agrada-me muito.
Estudou no seminário de Aveiro. Tem recordações desse tempo?
Os dois anos que passei em Aveiro foram a pedra-de-toque da minha vida. Despertei para muita coisa. Entrei com 15 anos, no 10.º ano. Até aí vivia com os meus pais e os meus irmãos – somos cinco –, entre Semide e Coimbra. O tempo de seminário foi o tempo de despertar. Recordo muitas coisas boas desses dois anos. Havia cinco anos que queria entrar para o seminário, mas só nessa altura foi possível. Estar longe da família permitiu também olhar para a família com um carinho e devoção muito maior.
Compôs algumas múscias no Seminário de Aveiro?
As três primeiras composições foram no Seminário de Aveiro. Já não as recordo, nem sei se tenho as letras. Havia dois colegas que compunham muito. Um deles dizia que tinha 64 músicas. Um dia, no meu quarto, resolvi pegar na viola, fiz uma música, compus uma letra e achei que aquilo tinha resultado. Isto deve ter sido em 1986. Depois, em Coimbra, desenvolvi este talento.
