“A missão deve começar precisamente por cá”

Norma Magalhães, de 19 anos, catequista na Vera-Cruz e estudante em Tecnologias da Informação e Comunicação na Universidade de Aveiro, passou as férias missionárias (21 Julho-25 Agosto) na companhia da Paula e do Pe Mário Ferreira, ambos da diocese de Aveiro, na Gabela, Angola (distrito Kwanza Sul). Conta-nos Norma que “foram as melhores férias que tive até hoje, apesar de ter visto algumas das piores coisas que vi até ao momento e com as quais eu nunca pensei que pudesse ter contacto”. Aqui fica mais um relato da experiência missionária, alguns meses depois de decorrida, porque, afinal, é sempre tempo de missão.

«Dava aulas todos os dias úteis: informática e Photoshop. Surpreendeu-me a sede de saber dos angolanos, o quererem extrair de nós toda a informação para alargar conhecimentos… e fazê-lo sempre com muita atenção e concentração. Enquanto em Portugal as pessoas se desinteressam facilmente e passados cinco minutos os alunos já estão a falar para o lado ou a “viajar”, lá não; eles ficam com muita atenção. Interessam-se e sabem que sem estudos não vão a lado nenhum.Precisam deles para modificar o seu país!

Na Gabela, quem nos acolheu foram os padres Farias e Paulo. Apesar da vida que levam ser dura e trabalhosa, eles encaram-na com brincadeira e sempre de forma positiva. Gostei muito da sua forma de ser. Acolheram-nos muito bem, puseram-nos muito à vontade, como se fizéssemos parte da família. Fiquei muito contente também com o trabalho que estão a realizar por lá. Reconstruíram várias estruturas, entre elas um hospital, uma igreja, a casa e o centro paroquial. O Pe. Farias está ainda a ajudar na construção de um seminário no Sumbe (capital do distrito do Kwanza Sul). Estas são apenas algumas das grandiosas obras que estes HOMENS maravilhosos têm feito. Tenho uma grande admiração por eles!

Impressionou-me a educação das pessoas, sobretudo das crianças. Quando eu as cumprimentava, respondiam: “Obrigado, sim obrigado”. Ficavam contentes só por lhes ter dado um pouco da minha atenção… não era nada que merecesse tanto. Negativamente, impressionou-me o facto de morrerem pessoas a toda a hora, principalmente crianças e por motivos banais como uma constipação, gripe…, que cá é tão fácil de curar: basta ir a uma farmácia comprar um medicamento, um antigripe, e passados dois ou três dias já está tudo resolvido.

Em relação à morte, tocou-me especialmente o funeral de um catequista, a que presenciei, devido aos rituais que eles costumam fazer e à quantidade de gente que veio participar, a festa que fizeram…. Lá, como diz o Pe. Orlando, da paróquia de Santa Ana (Luanda): “O óbito comanda a vida”. Toda a gente próxima da pessoa ou que a conhece tem de ir ao óbito. Se não vai é uma ofensa – ou então é porque está envolvida ou causou a morte da pessoa. Houve alguns dias que alunos meus faltaram porque tinham um óbito. Esta é uma das grandes diferenças culturais. Também me tocou quando recebi a notícia que duas crianças tinham morrido, de tarde, numa zona minada, perto do local onde eu havia passado de manhã.

As pessoas têm uma fé incrível, são muito crentes, muito cristãs. Senti Deus de uma forma que eu nunca tinha sentido antes. Ao contrário de muitas pessoas de cá que vão “à missa”, as pessoas de lá vão “para a missa”. Preparam as missas com uma dedicação extraordinária, vivem intensamente cada celebração. Os cânticos são muito bonitos e emocionantes. Elas dançam, cantam, fazem da Eucaristia a verdadeira Festa do Senhor. Gostei de ver a cooperação entre confissões cristãs. Inclusive no curso que dei tinha alunos protestantes. Não interessa se se é protestante ou católico, pois lá todos trabalham para a mesma causa.

Claro que eu não podia vir sem trazer uma marca comigo… fui mordida por uma matacanha (insecto). Mas não foi nada de grave, já estou bem, podia-me ter acontecido uma coisa bem pior!

Revolta-me imenso a corrupção, a sede de poder que leva a cometer crimes horríveis, ainda mais quando me apercebo que sou uma formiguinha perante esta situação e que quase nada posso fazer. E sempre que puder fazer algo por esta gente, vou fazê-lo. Tenho notado, no testemunho que dou aos meus amigos, na minha paróquia, a quem me pede, que algumas pessoas parecem paredes. Não ficam tocadas. Parece que estou a falar para o ar. Algumas acham que o que fizemos é muito lindo, apoiam-nos, “mas isso das missões é para os outros” e não para elas. É muito melhor estar em casa e ter a casa cheia de coisas, que por vezes não têm utilidade nenhuma e que são bem caras… enfim! Podemos fazer muito para melhorar a situação destes países. A missão não é só lá. Também é cá. E deve começar precisamente por cá.