Entre as grandes intuições de S. Tomás, conta-se a de atribuir ao Espírito Santo o papel de fazer amadurecer, como sapiência, a ciência humana. (…) Intimamente convencido de que “omne verum a quocumque dicatur a Spiritu Sanctu est” (tudo o que é verdadeiro, dito seja por quem for, provém do Espírito Santo – traduzimos nós), S. Tomás amou desinteressadamente a verdade. (FR 44).
Esta é uma questão tão velha como a história do homem – a relação entre a fé a razão – que atinge novos contornos com a configuração explícita da fé cristã, da filosofia e das outras ciências. Ás vezes a caminharem em estreita colaboração, algumas vezes ignorando-se mutuamente, não raro litigando.
1 – Por entre a apreciação da história, a definição das identidades, a transversalidade e a complementaridade de missões, o Santo Padre, na citada Encíclica A Fé e a Razão (FR), exprime o desejo e alimenta a esperança de que o diálogo entre estas duas dimensões da vida humana resulte num progresso sustentado da ciência, com a pessoa humana como motivo único do seu serviço, num crescente esclarecimento da fé, que vá eliminando o fideísmo nada enobrecedor da mesma pessoa.
2 – O Papa não faz apenas teoria. A sua prática, como Arcebispo de Cracóvia, passava também por uma relação estreita com o mundo da cultura, um diálogo com os estudiosos, hábitos de intensa leitura e estudo. O seu empenho era, como compreensível, pela teologia. Porém, nunca esqueci os outros ramos do saber, mesmo aqueles mais aparentemente distantes da teologia – declara o Santo Padre. E acrescenta: Com as outras disciplinas científicas tinha contactos sobretudo por intermédio dos físicos. Quem diria que um homem tão profundamente espiritual nutria um empenho fascinante pelas mais recentes descobertas da cosmologia! João Paulo II pode concluir, na sua autobiografia Levantai-vos! Vamos!, de onde citámos as expressões anteriores: Nas minhas leituras e estudos sempre procurei unir de modo harmonioso as questões da fé, as do pensamento e as do coração. Não são, na realidade, campos separados; cada um interfere e actua sobre os outros.
3 – O senhor Bispo de Aveiro vai ser agraciado com a Medalha de Ouro da nossa Universidade. Não sabemos as razões de tão significativo gesto. Mas, conhecendo a personalidade de D. António, o seu gosto pela leitura, o seu contacto com o mundo do conhecimento, o seu diálogo com a cultura, a sua frontalidade no aplauso como na crítica incondicionalmente humanista – evangélica! – da ciência, não estaremos longe da verdade se dissermos que a sua presença em Aveiro tem sido um benefício para a Universidade, porque tem sido uma mediação fecunda neste encontro – que não confronto! – entre a fé e a razão. E merece, por isso, a distinção!
4 – Reconhecendo – é incontestável – que Karol Wojtyla, o Bispo de Roma, é mestre nesta proximidade, não resisto a transcrever, da citada autobiografia, a recomendação que faz aos bispos. Sabe-se que nem todos os bispos mostram um interesse particular pelo diálogo com os estudiosos. Não poucos deles privilegiam as tarefas pastorais, no sentido mais amplo da palavra, em detrimento da relação com os homens da ciência. Para mim, porém, vale a pena que membros do clero, padres e bispos, entrem pessoalmente em contacto com o mundo da ciência e com os seus protagonistas. Mais precisamente o bispo não deveria limitar-se a cuidar só das suas universidades católicas, mas manter também uma ligação estreita com toda a vida universitária: ler, reunir-se, discutir, informar-se sobre tudo o que acontece nesse âmbito. Obviamente, ele não é chamado a ser cientista, mas pastor. Como pastor, no entanto, não pode desinteressar-se desta componente do seu rebanho, já que lhe compete a tarefa de lembrar aos estudiosos o dever de servir a verdade e de promover, assim, o bem comum.
D. António é da mesma escola do Concílio Vaticano II, da constituição pastoral Gaudium et Spes. Aprendeu a lição e tem-na vivido intensamente. Parabéns, senhor Bispo! E continue a estimular os seus Padres e o seu Povo a que deixem de se entreter com questões rasteiras, da vulgaridade da praça pública, para procurarem uma formação séria, abrangente, dialogante com a ciência, a fim de desenharmos a matriz cultural das nossas gentes numa confluência de saberes iluminada pelas razões da fé.
