“Família, torna-te o que és”

Sagrada Família – Ano A A Palavra da liturgia deste domingo põe à nossa contemplação a família de Nazaré e apresenta-no-la como modelo das nossas famílias e das nossas comunidades cristãs. As três leituras dão-nos orientações muito práticas para nos ajudar a construir famílias felizes, com projectos de comunhão e de crescimento mútuo, lugares do encontro, da partilha, da fraternidade e do perdão.

Hoje começamos pelo evangelho. O texto coloca-nos diante de uma cena familiar, a família de Jesus, Maria e José. Nesta cena podemos encontrar duas características fundamentais: o amor verdadeiro que circula entre os membros da família e uma esmerada atenção a Deus, que aponta o caminho, e que esta família segue, em inteira obediência e com muita confiança. “Toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto”, foi a ordem que o anjo de Deus deu a José, porque Herodes procurava matar o Menino. Esta é também a ordem que “recebem” muitos pais e mães do nosso tempo, quando, sitiados pela guerra e ameaçados de morte, tentam escapar às mãos mortíferas dos “Herodes” contemporâneos. Tal como Maria, José e o Menino, hoje são multidões os que se deslocam das suas terras e se refugiam onde melhor sorte julgam ter. Mas, nos nossos tempos, há mais e diversificados atentados à integridade da família: a publicidade, as leis permissivas, a falta de fidelidade generalizada, o mau exemplo, a incapacidade de diálogo de muitos, os atentados internos e externos, sob todas as suas forças. A Sagrada Família de Nazaré conseguiu superar com dignidade os obstáculos que encontrou, porque, nesta família, encontramos os membros unidos, em sintonia, respeitando-se mutuamente e vivendo solidários. É assim a nossa família? Na família de Nazaré também se escutava a Palavra de Deus, se aprendia a ler os seus sinais e se obedecia aos seus projectos, os quais asseguraram a esta família um futuro feliz, o progresso e a paz. A nossa família escuta a Palavra de Deus, aceita com serenidade os seus projectos e a sua lógica e percorre, com confiança, os caminhos que Deus lhe aponta?

Na segunda leitura Paulo salienta a dimensão do amor que deve brotar dos gestos dos que vivem “em Cristo” e aceitaram ser “Nova Criatura”, e considera a família como uma célula do Corpo de Cristo, a Igreja. Por isso, a paz e a harmonia que a caracterizam, devem também existir na “igreja doméstica”, que é a família. Assim, o Apóstolo recomenda-nos que nos revista-mos de sentimentos de misericór-dia, bondade, humildade, mansidão e paciência. Que nos apoiemos uns aos outros e nos perdoemos. Que a paz de Cristo reine nos nossos corações. E termina com orientações muito concretas para cada um dos membros da família: “Esposas, cooperai com os vossos maridos; maridos, amai as vossas esposas e não as trateis com aspereza; filhos, obedecei em tudo a vossos pais; pais, não irriteis os vossos filhos”. É este o quadro em que se desenvolvem as nossas relações familiares? Traduzimos o amor mútuo em gestos de carinho e de ternura e no respeito pela liberdade e pelo espaço de cada um?

A primeira leitura apresenta, de forma muito prática, algumas atitudes que os filhos e filhas devem ter para com os pais e mães. É um modo de concretizar esse amor de que fala a segunda leitura. Nesta, Ben-Sirá, comunica-nos uma mensagem, que contraria as dolorosas situações com que hoje nos deparamos. O texto começa por afirmar: “Deus quis honrar os pais nos filhos e firmou sobre eles a autoridade da mãe”. Mais adiante exorta assim: “Filho, ampara a velhice de teu pai; não o desgostes durante a sua vida… porque a tua caridade para com teu pai nunca será esquecida e converter-se-á em desconto dos teus pecados”. Sentimo-nos gratos aos nossos pais, porque eles aceitaram cooperar com Deus criador? Costumamos manifestar-lhes o nosso afecto e gratidão? Face à persistente incursão de contravalores, que põem em causa a nossa identidade cultural e religiosa, e até mesmo a nossa humanidade, o que significam os valores que recebemos dos nossos pais e mães? Apreciamos com maturidade a continuação desses valores, ou preferimos abjurá-los diante do que consideramos “valores modernos”?

Leituras da Sagrada Família – Ano A

Sir 3,3-7.14-17a; Sl 128 (127); Col 3,12-21; Mt 2, 13-15.19-23