“É só dar o salto! Vamos!”

Missionário uruguaio em Angola incentivou ao voluntariado no CUFC Do pouco se faz muito, do nada se forma o Amor. É isto em suma o milagre do que é ser missionário

O Pe Martin representa os jeitos, as forças, o trabalho de uma Igreja, que em vez de campanhas a pedir fundos ou teologias balofas, põe mãos à obra, suja as mãos de barro e cimento (se o houvesse), percorre trilhos minados e teima em dizer ao mundo que vale a pena ir mais longe, vale a pena subir todas as montanhas por causa de uma coisa que as move: um Senhor, a transbordar de Amor, morreu e ressuscitou… e isso tem tudo a ver connosco e com as nossas vidas!

Foi essa força, esse riso contagiante do missionário nascido no Uruguai, que proporcionou no CUFC uma noite maravilhosa, no dia 12 de Janeiro. Pároco de Lwena, o Pe. Martin Lasarte começou por agradecer a grande ajuda prestada pela Diocese de Aveiro – que tem com a sua paróquia uma espécie de geminação escrita em lado nenhum –, pelo envio de dois contentores com os bens que nos haviam pedido e jovens voluntários! Tudo é necessário, desde o brinquedo mais pequenino até ao computador mais avançado, passando pela roupa, materiais de construção, sal e tantas outras coisas… Mesmo os livros, que, como sublinhou o missionário, compõem a maior biblioteca de toda a província do Moxico, um território equivalente a Portugal! A maior, porque a única…

Falou-nos ainda do ser africano, do modo feliz de ser das pessoas e do sorriso eterno delas, contra todas as adversidades, como o facto de não serem nada nem ninguém para o mundo, de terem sofrido a raiva de uma guerra de que não sabem, nem nunca souberam qual a razão. Viver de camião em camião, de campo de refugiados em campo de refugiados… sem nada, a não ser a roupa que se tem vestida, o saquito da fuba e talvez um galito que se comerá numa ocasião de partilha e, claro, o eterno riso de quem parece viver alheio a isto porque sabe que a vida é uma subida e o que conta é como se encara o caminho!

As três características dos voluntários

De olhos sonhadores, explicou ele, aos missionários pequeninos que ali estavam, que um voluntário tem de ter três características essenciais:

– A fé. É preciso acreditar! África reúne em si uma magia infindável, mas é também um lugar de isolamento, quando escurece, escurece… quando passa a novidade, o entusiasmo inicial, o que fica é a força interior, a fé, a luta naquilo em que se acredita, e isso tem de vir de dentro, tem de ser intrínseco e não apenas uma motivação exterior. É como o pão necessário à vida, ou o combustível de um carro. Ninguém anda, se não tiver a força, a fé, a garra dentro de si, os olhos a brilhar à procura do topo da montanha!

– Outra das características do voluntário – e o riso foi geral – é ser normal! “É difícil encontrar pessoas normais”… E assim, desta maneira simples, falou da necessidade complementar de uma pessoa que é serena, que tem a cabeça em cima dos ombros e sabe o que diz quando fala, mesmo que o que diga sejam perguntas… As perguntas pertinentes respondem mais que algumas respostas! É esta maturidade que o voluntário tem de ter, tem de ser uma pessoa que procure, insanamente, a felicidade e a encontre na sua dádiva aos outros! Ser normal é ser capaz de ajudar com serenidade e postura, é ser capaz de viver no mundo e falar do caminho que se percorre. É como subir uma montanha… É tê-la subido e falar das dificuldades, apontar direcções para as ultrapassar e, assim, chegar ao topo da mesma. É acompanhar os outros que vão ajudar e deixar-se ajudar. É viver com um sorriso e serenidade de quem se sabe acompanhado pela fé que nos sustenta! Não é o ser-se perfeito; isso são máscaras… É o caminhar para lá! Fazer a escalada, com a calma e o discernimento devido.

– Finalmente, a última característica que o Pe Martin referiu foi a mais prática: a formação de vida, que está nas anteriores, e a profissional, as habilitações. É importante que o voluntário saiba fazer alguma coisa. A par disto, muitos dos presentes se indagaram: “O que saberei eu fazer? Não sei nada…” A resposta é a de que um sorriso basta. Todos nós, num contexto de missão, sabemos fazer alguma coisa que é útil ou importante. Desde cultivar couves, até brincar ou jogar à bola com as crianças, até dar aulas, assentar tijolo, pintar casas, etc., todos nós sabemos fazer alguma coisa. Mas não é por nós que as sabemos fazer! Podemos não fazer a mínima ideia do como fazer, mas há tanta coisa para fazer que, na hora da verdade, acreditamos, queremos e procuramos acreditar que há Alguém connosco que nos guia e inspira!

“O nosso patrão não paga com dinheiro”

A distinção entre um voluntário cristão e um trabalhador ou voluntário de uma ONG é esta: o nosso “Patrão” não paga com dinheiro, paga com sabedoria e meios para fazer a missão, a nossa e a de cada um, andar para a frente! Moisés era gago… e quando foi preciso falar, falou e fê-lo bem! Os talentos são bem distribuídos, é necessário cultivar esta capacidade sem limites, de sonhar um mundo “bem lindo”, de lutar e acreditar, carregando dificuldades, mas vencendo-as sempre, numa procura in-cessante de soluções. Do pouco se faz muito, do nada se forma o Amor. É isto em suma o milagre do que é ser missionário, do que é ser como este homem, normal de metro e oitenta, e sorriso estampado a cativar tudo e todos, que visitou Aveiro incomodando e encantando, dando este alento silencioso que clama: “Vamos… o mundo precisa de ti! Faz-te ao caminho e sorri com os olhos… é só o que é preciso! É só dar o salto! Vamos, yja, chindeles!!!*”

Pedro Neto, Secretariado da Animação Missionária

* Expressão em chokwe, dialecto de Lwena, e que signiifica “sim, Brancos”. Exorta à partida.