Rigor científico e crendices obtusas

Dias Positivos 1. Um dos grandes enigmas da nosso tempo é este: porque é que, numa época supostamente dominada pela ciência, aumenta a crendice, a teoria sem fundamento, a falsidade a torto e a direito?

O nome da ciência está sempre a ser invocado. Para vender um iogurte que protege mais, um detergente que lava melhor, uma pasta que branqueia, lá aparece o “cientificamente provado”, o “testado em laboratório” ou um cientista de gráfico na mão. Mas, ao mesmo tempo, ouvem-se as teorias mais obtusas. Que as pirâmides foram construí-das por extraterrestres. Que os astros comandam a nossa vida. Que as doutrinas que a Igreja sempre ensinou são resultado de manipulação. Que há maus olhados. Que é preciso ir à bruxa ou ao mestre africano que cura os males de uma lista tão extensa e criativa que daria para rir se não soubéssemos que há pessoas que embarcam nessas patra-nhas (penso naqueles papéis que de vez em quando são postos no limpa-vidros do automóvel). Que só se entrarmos naquelas cadeias de e-mails ou sms (as cartas caíram em desuso) é que evitamos um problema terrível…

Mas o que mais espanta é que por vezes o rigor científico exigido, por exemplo, pela profissão, ocupa a mesma mente que a crendice mais grosseira.

2. Agora parece que surgiu a moda de vender relíquias pela internet. Não me refiro às relíquias de santos. Trata-se de relíquias profanas. Por exemplo: Uma chiclete (mastigada) da cantora Britney Spears, ou os goles de água que Elvis deixou num copo. São casos reais. Foram transaccionados na internet e renderam muitos dólares aos proprietários. É de esperar que comecem a ser comprados/vendidos, sei lá, os charutos de Che Guevara, as cordas do violino de Einstein, os chapéus de Diana ou os palitos de Napoleão. Como acreditar nas celebridades faz parte dos credos modernos, esses produtos terão com certeza muita procura.

Estamos novamente na Idade Média, altura em que chegaram a existir 700 “verdadeiros pregos” da Cruz de Cristo, se vendiam saquinhos com o pó de que Adão tinha sido criado, e um rei dizia ter um crânio de S. João Baptista com doze anos (outro dizia possuir a pedra que Jesus não teve para reclinar a cabeça). A febre das relíquias era tanta (quando a fé fica tresloucada degenera em febre), e gerou tantas falsificações, que o católico Erasmo de Roterdão afirmou: “Os verdadeiros bocados da cruz chegavam para construir um navio”. E João Calvino, o reformador protestante, disse: “Seria fácil verificar que cada apóstolo teria mais de quatro corpos e cada santo pelo menos dois ou três…”

Não nego que os sinais podem ser necessários para a fé (quase como as fotografias de quem se gosta). Mas o excesso de sinais é um mau sinal. Eles são meios e não fins.

3. Num jornal do fim-de-semana passado, dizia-se que há hoje muito espiritualismo, mas pouca espiritualidade. Na verdade, entre uma coisa e outra as diferenças são abissais. A fé cristã tem uma espiritualidade, como, aliás, as grandes religiões. Já os espiritualismos são deturpações. São doenças do espírito. São de rejeitar.

Tudo isto me faz pensar naquelas últimas palavras do Ressuscitado a Tomé: “Não sejas incrédulo, mas crente”. Jesus podia ter dito, como a frase quase pedia, “não sejas incrédulo, mas crédulo”. Porém, disse “crente “ – o que é muito diferente de “crédulo”. Infelizmente o nosso tempo parece mais propício à criação de crédulos do que de crentes. Ser crente dá mais trabalho. É mais exigente. Mas é isso que faz a diferença.