Quando a arte está entre o mistério e o povo

Livro do Mons. João Gaspar “Arte Religiosa e Património Cultural. Orientações” O objectivo da arte sacra é “exprimir adequadamente o mistério lido na plenitude da fé da Igreja”, afirma o Papa, citado por Mons. João Gaspar no livro que acaba de publicar em edição revista e ampliada, “Arte Religiosa e Património Cultural. Orientações”. Para atingir tal objectivo é necessário que o destinatário do mistério divino – o ser humano – se sinta acolhido por essa arte. Toca-se, assim, nos dois pontos de tensão da arte sacra: mistério divino e destinatário humano, o que leva a concluir que a arte sacra tem de ser muito funcional. Se nas outras artes um artista pode dar livre expressão aos seus sentimentos, na arte sacra essa expressão, ainda que se faça sentir, nunca pode perder de vista que é uma arte para as pessoas, daí que sejam necessárias “Orientações”.

“Arte” e “Orientações”, noutro âmbito artístico, seria qualquer coisa de inconcebível, uma contradição. “Como é que a arte pode ter orientações? A arte é caótica, livre, não-orientável” – diriam os artistas. Mas não é isso que acontece com a arte sacra, que sendo a mais sublime (lida com o mistério) é a mais funcional (é verdadeiramente para o povo).

Mons. João Gaspar, vigário geral da diocese, historiador e presidente da Comissão Diocesana de Arte Sacra, ao longo dos anos tem desenvolvido um trabalho notável nesta área. “É mais uma benemerência que a Diocese lhe fica a dever”, afirma D. António Marcelino na introdução ao livro.

Estas “Orientações”, que em grande parte se dedicam à igreja-casa, “têm a mera finalidade – diz o Monsenhor – de serem um modesto instrumento, que poderá ser útil nas mãos de responsáveis da arte cristã, sejam arquitectos, sacerdotes, elementos de Conselhos Económicos e Pastorais, ou outras pessoas influentes nas Paróquias. Só isto e nada mais” (pág. 10). Tendo em conta que as igrejas são edifícios públicos no sentido mais abrangente da palavra (são frequentados pelo povo e marcam obrigatoriamente o espaço exterior em que se encontram), temos de acrescentar que este livro de 48 páginas de orientações é também um instrumento útil para qualquer cristão entender os espaços que frequenta: a disposição do templo e sua finalidade, o lugar dos fiéis, o grupo coral, o ambão, a fonte baptismal, a reserva eucarística, o espaço penitencial, imagens, etc. (estes são alguns dos temas abordados).

A enriquecer esta edição surgem gravuras de algumas boas construções ou remodelações de igrejas, como seja o caso da Igreja de Aguada de Cima (remodelada) ou de Nossa Senhora de Fátima, Aveiro (nova).