Terá sido mesmo assim?

Cartas dos Leitores No nº do Correio do Vouga de 19 de Janeiro, vinha escrito na 1ª página “Muitos católicos aprenderam o Credo ao lerem a fachada da nossa igreja”, referindo que esta frase ou informação fora dita pelo pastor Eduardo Conde de Almeida, durante a visita guiada ao templo da sua Confissão, a Metodista, em Aveiro, (na rua Oudinot), acompanhando o jornalista entrevistador. Aquela mesma frase aparece novamente impressa em letras gordas numa das páginas centrais, a nº 8.

Faço dois reparos a esta notícia: o primeiro é que custa-me a imaginar ver alguns, ‘muitos’, segundo o pastor-guia, ‘católicos’ a pararem em frente à igreja referida para lerem, até decorarem, aquela fórmula do Credo, chamado ‘dos Apóstolos’, que ainda é relativamente longa. Pararem e lerem (católicos ou não), admito, pois eu próprio também parei e li, quando por lá passei a 1ª vez, depois de colocado aquele painel de azulejo com o texto na fachada daquela igreja. Como são muito raras as pessoas que conseguem decorar, lendo só uma vez (uma dessas memórias prodigiosas capaz disso era a do Sr. D. João Evangelista de Lima Vidal, segundo dizem pessoas que privaram com ele), a minha inteligência não consegue acreditar na veracidade de tal informação, por mais que a minha vontade esteja integrada no movimento ecuménico.

Um segundo reparo é ser dito que foram ‘muitos os católicos’. Como terá sido feita a contagem, por ele ou por outrem, para concluir que foram ‘muitos’? E ‘muitos’ quer dizer aproximadamente quantos? Meia dúzia, meia centena, algumas centenas?!

Uma dificuldade teriam encontrado esses ‘muitos católicos’: se continuavam a assistir ou participar em alguns actos religiosos católicos, por exemplo, a missa, e se nesta se recitasse o Credo (o que acontece sempre ao domingo), e em português (o que acontece desde 1993, com a reforma litúrgica do Concílio do Vaticano II, em que passou a usar-se a língua materna em vez do latim), e na fórmula do chamado ‘Credo ou Símbolo dos Apóstolos’, logo dariam conta que a fórmula do Credo aí proclamada não era bem igual à do painel da igreja metodista. E sendo a da Igreja Católica que eles ouviam recitar, ainda que a não recitassem, era esta que eles iam aprendendo; e era também esta que eles tinham aprendido na catequese. (Porque se tinham andado algum tempo na catequese, sempre teriam aprendido o Credo!) E a fórmula que se ensina na catequese, em Portugal, (e em português, desde o princípio do século XV), é a da Igreja Católica, que, embora com algumas, ligeiras, modificações, no decorrer do tempo, para maior precisão do significado das palavras, dada a evolução da língua, sempre foi a usada por esta mesma Igreja. Se esses ‘muitos católicos’ tinham passado para a Igreja metodista, e nela passaram a assistir aos seus actos de culto, já não se poderá dizer que eram ‘católicos’.

Acho que o movimento ecuménico não será muito ajudado com informações que não sejam muito ou nada correctas ou exactas.

Por outro lado, o Jornal, ao referir uma frase ou informação do pastor-guia, que facilmente se via que não podia ser exacta, embarcou, neste caso, num critério de jornalismo, que eu considero de sensacionalista, e colocou essa frase, logo na 1ª página do Jornal e, pior ainda (no meu critério, claro!), em letras gordas numa das páginas centrais. Considero que os assinantes e leitores deste têm direito a que o jornal que pagam lhes forneça uma informação o mais exacta e objectiva possível, ainda que não encha a vista.

Padre Belinquete (padre católico, da diocese de Aveiro)