“O Papa deu como modelo de renovação o Sínodo de Aveiro”

D. António Marcelino, Bispo de Aveiro Que impressões tinha sobre Aveiro e o seu povo quando soube que vinha para cá?

Cheguei a Aveiro no dia 1 de Fevereiro de 1981. É engraçado que, das vezes que por cá passei, quando era padre, ou antes, pensava: “Uma terra onde gostava de viver”. Sempre gostei de mar, vindo eu lá do interior. Tinha vindo a Aveiro várias vezes. Vim às semanas de estudo na Curia, a uma semana de estudos de pastoral vocacional no seminário – era o Pe João Paulo Ramos o responsável – fazer um retiro ao clero, já nomeado bispo, mas não consagrado… Fazia cursos pelo país inteiro, e a certa altura, solicitei ao Pe Georgino que andasse comigo.

Diz-se que “a diocese faz o bispo e o bispo faz a diocese”. Ficou mudado por estar nesta terra?

Penso que enriqueci. Se não tivesse tanto espaço como a minha capacidade de alguma maneira pedia, ficava um pouco mutilado. Teria sido de outra maneira, se tivesse ido para a diocese para a qual estive indicado…

Qual era?

Era a Guarda. Isso foi tornado público. Nunca recebi qualquer nomeação, mas houve quem desse isso como garantido. Em qualquer sítio me desenrascava – passe lá o termo. Porém, aqui encontrei de facto um campo de grandes possibilidades de investimento.

Que desafios encontrou?

Na minha saudação inicial já vinha um pouco alusão a isto tudo. Aveiro era, já na década 1980, uma zona do País que emergia, de actualidade política, de gente que passava, de espírito inovador – tinham sido aqui os congressos da liberdade [Congressos da Oposição Democrática]. Isso tinha a ver com o meu feito. Fui até considerado muito esquerdista por algumas pessoas.

Eu lia muito o Correio do Vouga, já em Portalegre. O D. Agostinho dizia: “Lê este jornal. Isto é que é um jornal”. Lia o de Coimbra [Correio de Coimbra], pelos “Sintomas” de Urbano Duarte e o jornal daqui, que o meu bispo me dava.

Sentia claramente que esta zona não era uma zona parada. Em Portalegre, era totalmente diferente. Dei uma reviravolta com os Cursos de Cristandade, mas a gente tinha de estar sempre a animar-se. Castelo Branco estava um pouco no marasmo. De Lisboa, tinha a experiência do Oeste: causas com espírito de iniciativa.

Sentia que Aveiro era um bocadinho essa terra onde sentiria desafios e capacidade de inovação. Tinha uma certa inquietação. Eu dizia ao Senhor D. Manuel: “Temos de mexer nisto”. E ele dizia: “Ó D. António olhe que o tempo amadurece”. “E apodrece, D. Manuel!” – era a minha reacção. E ele ria-se.

A Universidade estava a começar e percebia-se perfeitamente que ia longe. Já era inovadora. Havia críticas à Universidade por causa das inovações. Por exemplo, o estágio integrado na formação de professores. Coimbra, Lisboa e Porto atacavam, mas depois chegaram lá, passados esses anos todos.

Beneficiei da continuidade de D. Manuel e o trabalho de pós-concílio que se foi fazendo longamente. O facto de eu estar sete anos como bispo coadjutor deu perfeitamente para entrar no ambiente. Em Aveiro, se a gente chega de rompante e começa a que-rer fazer coisas, espeta-se imediatamente.

O D. António foi o primeiro a receber a Medalha de Ouro da Universidade de Aveiro. Na altura pareceu que não houve uma justificação cabal da atribuição…

Foi uma surpresa total. Quando a Reitora me telefonou a dizer que queria pedir um favor, eu disse: “Peça à vontade”. “É para que aceite a medalha da Universidade”, disse ela. “Está a brin-car comigo!” Quiseram sublinhar a importância de uma pessoa fora do contexto universitário que luta por valores e ajuda a sua própria região. E por não estar enfeudado a ninguém, mas com uma realidade interior para estar com todos na medida em que tem de estar.

Sempre teve uma grande atenção para com a Universidade.

Desde a primeira hora. A Reitora frisou o aspecto do Centro Universitário, mas é um processo que se vem desencadeando. Se dessem a medalha a outra pessoa, não me sentia nada ofendido. Fiquei mais admirado por ma terem atribuído do que se a tivessem dado a outra pessoa qualquer. Até correram o risco, num contexto, como é o actual, de distinguir uma pessoa da Igreja. Penso que não é alheio o facto de ter pedido, há anos, que não me pusessem em lugar de destaque, mas como os outros convidados de honra. Isso caiu muito bem na Universidade.

Fez esse pedido?

Sim, não porem lá a cadeira ao lado; que me dessem um lugar como o dos outros convidados. Soube através do Reitor de então que o pedido tinha caído muito bem no Conselho Científico. É todo um contexto de boas relações, sem que eu ande lá metido. Trato-os bem, acolho-os bem.

Como pastor, em que áreas gostava que a diocese avançasse mais?

Não escondo que gostava que se tivesse avançado mais na sensibilidade às realidades humanas e sociais da zona diocesana. Aí não avançámos muito.

Gostaria que avançássemos mais no laicado organizado, que é fundamental numa diocese como esta. Encontrei uma certa alergia aos movimentos apostólicos, à Acção Católica anterior. Por outro lado, gostava de ver os padres mais sensíveis à dimensão Igreja-Mundo. São generosos e sensíveis à pastoral, à catequese, mas a dimensão Igreja-Mundo ficou um bocadinho descurada. Gostaria que tivéssemos maior consciência comunitária. Por vezes os padres, em vez de vencerem as tendências dos leigos, quase se deixaram apanhar. Do ponto de vista civil, a diocese de Aveiro é muito de bairrismos. Sempre sonhei que a Igreja podia dar uma reviravolta a isto. Mais se pegou a mentalidade à Igreja do que propriamente a Igreja conseguiu ser fermento aí.

O primeiro Sínodo foi de harmonização. O segundo de renovação, mas…

Foi e continua a ser. Pena é que só se tenha agarrado no Sínodo passados uns anos. Tenho sido coerente com o sínodo. Não friso o sínodo permanentemente, senão criava alergias maiores. A meu ver, o clero, na sua globalidade, apanhou o sínodo. Mas se houvesse uma pastoral e realidade de comunhão, entrava melhor. Como cada um trata de si, é mais difícil permeabilizar a vida com as grandes intuições do sínodo. Quem fizer um estudo dos documentos e da caminhada que se fez fica admirado com as conclusões. Aliás, esse estudo foi feito em Roma…

Sobre o Sínodo de Aveiro?

Sim, mas não se tratou de um estudo científico. As conclusões foram apreciadas em congregações diversas; e o Papa, quando falou aos bispos, no final da Ad Sacra Limina [visita que os bispos de um país periodicamente fazem ao Papa], deu como modelo de esforço de renovação o Sínodo de Aveiro. Fiquei um pouco atrapalhado. Não sabia que ia falar disso, mas isso só nos responsabilizou. Perceberam que o Sínodo foi a maneira de levar o Concílio ao povo. É evidente que o Papa não apreciou individualmente as con-clusões sinodais, mas deu-me pessoalmente os parabéns pelo Sínodo. Talvez indo o bispo embora, com outro bispo que venha a seguir, seja mais fácil de agarrar… É curioso que vou aos nossos documentos sinodais e verifico uma actualidade extraordinária, uma visão alargadíssima. Claro que tiveram importância os teólogos que estiverem nisto, o Pe Querubim e outros. Era importante para os nossos padres novos terem aulas de sínodo diocesano. Se nós tivéssemos cá o 6º ano de Teologia, isso entrava mesmo. Pode ser que, quando eu ficar emérito, faça uma coisa deste género.

Quanto ao Congresso Eucarístico. O que se pode esperar?

É um acontecimento que ajuda a perceber que o Ano da Eucaristia não é um ano sem mais nem menos. Há problemáticas a reflectir e é o que vamos fazer, com um naipe de quatro pessoas diversificadas: um bispo, um presbítero, um leigo e uma senhora, os quatro grandes oradores do congresso, todos confirmados. Não vai ser uma coisa só de padres.

Quem são essas pessoas?

É o D. Marto [bispo de Viseu], o Dr Couto [padre, teólogo de Porto], o Dr. José Dias [leigo de Coimbra] e a Dra Isabel Varanda [leiga da UCP de Braga]. Depois, há as intervenções parciais com outras pessoas. A Eucaristia não é transitória; é essencial à vida da Igreja. A meu ver, é mais importante o esquema como tal do que os assuntos que se vão tratar.

Mas a preparação também conta…

Sim, nas comunidades paroquiais. Temos de levar isso a sério.

Sempre teve uma paixão pelos jovens e os jovens gostam de si. Não o espanta que não haja mais vocações?

Não espanta, porque as vocações não são simpatia pelo bispo ou pelo padre. Em qualquer dos casos, pode ser convidativo a criar um ambiente de possível chamamento. O problema dos jovens é a continuidade. Tem que nos empenhar a todos.

Sempre houve empenhamento da diocese, com o Pe José Fidalgo, que esteve 14 anos, a transição com o Pe Martins e Pe Rogério, e o Sousa, outros tantos anos. Parece é que estamos um pouco na mesma. Onde é que se põe o problema dos jovens: é ao nível de iniciativas diocesanas ou em acontecimentos diocesanos, nacionais ou internacionais? Não. O problema está no dia-a-dia, na continuidade dos grupos nas próprias paróquias. É uma questão de persistência, de renovação dos animadores, de estômago para aguentar os cansaços. É uma luta permanente. O que resistir até ao fim é que ganha. A nossa caminhada sinodal tinha uma intuição forte: conhecê-los bem, para com eles ir mais longe. Este slogan tem um programa pastoral implícito: o conhecimento e a comunhão. É uma das áreas essenciais do ministério sacerdotal.

Se hoje estivesse no início do sacerdócio, que três áreas escolhia para se empenhar mais?

Se estivesse no início, teria todas as ilusões dos jovens e não teria objectividade… Mas penso que há aspectos fundamentais. O primeiro é tomar a sério o projecto evangelizador da Igreja. Estamos numa igreja a paganizar-se. Estão morrendo valores e energias fortíssimas. Daria uma importância muito grande ao laicado e privilegiava a família. E daria importância àquilo que é fundamental: a dimensão da Igreja serva do mundo em nome de Deus; e não uma Igreja Senhora – conhecer os dinamismos da própria sociedade, entrar neles. Estamos numa diocese cheia de gente generosa, mas pouco coordenada nos aspectos comuns essenciais.

“Pôr-me-ei ao lado do meu sucessor, se ficar em Aveiro”

Ao fazer 75 anos, vai pedir a resignação…

Não peço a resignação. Apresento é ao Papa a minha disponibilidade para aquilo que quiser.

De qualquer forma é inevitável falar de sucessão. Já falou nisso em alguns círculos. Tem alguma coisa a dizer aos leitores?

Em 21 de Setembro [75º aniversário], se tiver vida e saúde, escreverei essa carta ao Papa, como é meu dever. E fico disponível para o que o Papa quiser. Quero continuar a ser útil à Igreja diocesana.

Não vai parar quando for bispo emérito de Aveiro…

Certamente que não, com este mundo a desbravar [D. António aponta para as estantes repletas de livros]. Há muita coisa que gostaria de estudar e aprofundar. Mas não ficar parado, isso não! Pôr-me-ei ao lado do meu sucessor, se ficar em Aveiro – como estou a pensar.

Vai escrever?

O quê, as memórias?

Não propriamente, porque ainda deve ter muito para viver, mas sobre alguns problemas de que falámos na entrevista, por exemplo…

Gostaria, sim. Há coisas onde o nosso saber, a nossa experiência faz parte dum património eclesial e diocesano que não se devia perder.

Continua a colaborar com o Correio do Vouga?

Acho que sim, desde que a direcção queira (risos).

Que questões gostaria de aprofundar?

Há uma questão que é prévia a todas. As mudanças são hoje mais culturais do que nunca. Como se está na cultura com os valores perenes do Evangelho, como podem ser fermento da cultura? Sinto que está aqui uma exigência para a nossa acção pastoral. O nosso pensamento, a nossa intervenção tem de ser totalmente diferente. Há uma nova cultura. Não é uma moda. Está a acontecer uma mutação cultural impressionante. É preciso aprofundar as raízes, de onde isso vem, aonde é que vai parar… Valores, critérios, estilos de vida que entram na vida dos mais novos com a maior das normalidades, sem qualquer espírito crítico. Esse é um ponto que gostava de aprofundar. O bispo não é um investigador intelectual de gabinete, mas há sempre uma perspectiva pastoral que está na nossa mente. Estou a ler um livro e imediatamente traduzo para a minha responsabilidade do dia-a-dia. É inevitável. Nem sequer um romance consigo ler que não seja numa perspectiva de confrontos e referências.

O que tem lido ultimamente?

Ando a ler muito sobre a experiência cristã enquanto elemento fundamental e estruturante da nossa própria vida. É um tema novo. Comprei o livro há dias em Fátima: “Experiencia de Dios y formación vocacional”, de José Maria Imizcoz Barriola. Há um outro que estou a ler e gostava de alargar a reflexão a outros. É um livro de João Baptista Libânio. Ofereceu-mo o Pedro José [padre da diocese a missionar no Brasil], “As lógicas da cidade”. Dá uma visão muito diferente da evangelização em meios urbanos. O local de encontro das pessoas era o adro da igreja. Vivia-se da igreja. Hoje não. Passou-se do impacto da fé ao impacto sobre a fé.

Há um outro que quero comprar, “Abrigos: condições das cidades e energia da cultura” (edições Cotovia), de António Pinto Ribeiro, dentro desta problemática.

Está tudo dentro da mesma ideia, a nova cultura e a vivência da fé. Dois pontos que mais me estão preocupando.

“A carga das omissões é terrível, mas não sou de me angustiar”

Olhando de relance, como avalia os seus cinquenta anos de padre?

Ainda não os fiz. Por isso ainda não fiz o balanço. Mas logicamente é uma vida privilegiada. Ordenei-me e fui para Roma. Ir para Roma na década de 1950 foi uma graça muito grande. Na altura o mundo acabava na fronteira. Deu-me uma abertura enorme. Foi um tempo de paixões. Uma delas foi Henri de Lubac e as “Meditations sur l’Église”. Meteu-se-me na cabeça e numas das primeiras férias de padre fui à procura de Lubac [teólogo fundamental do séc. XX, que antes do Concílio foi mandado silenciar; no Concílio a sua teologia viria a ser recuperada]. E fui a caminho de Lyon. Tinha três objectivos: encontrar o Lubac, fazer um contacto com o catecumetado de adultos, que estava a começar, e conhecer o bispo operário, Mons. Anselm. Só não consegui falar com Lubac, estava “congelado”, não recebia ninguém, porque estava proibido de ensinar.

Não sabia que ele tinha sido proibido de ensinar?

Sabia, mas estava convencido de que ele me recebia. Nos três anos que vivi em Roma – o meu bispo era muito aberto e dizia: “Tu não venhas logo para casa!” –, nas férias, viajei pela Bélgica, pela Áustria. Tive sempre ligações com pessoas de todos os lados. Vivi esses três anos com uma ânsia de aproveitar. Sabia o que vinha fazer. Até gozavam comigo: quando dávamos um passeio de autocarro [em Portugal], passávamos por uma vacaria e alguém dizia: “Pare aqui, que o Marcelino quer fazer uma experiência pastoral”.

Depois dos estudos em Roma, trabalhou no seminário…

Vim de Roma em 1958 e sentia-se que estava tudo a abanar. Pio XII morre em Setembro, é eleito em Outubro João XXIII. Vivi esta transição toda. Em Roma, tínhamos um grupo de padres que se reunia a sonhar com Portugal – o Maurício de Lisboa, o Luciano Guerra de Fátima, o Augusto de Viseu, o Martins de Vila Real, o Matos de Viseu. Era um grupo que se reunia a sonhar com Portugal. Eu tinha lido muito sobre a missão de França. Sonhava com coisas deste género.

Vim para Portugal e fui para o Seminário com uma mentalidade aberta. Escrevi sobre preparar pessoas para o catecumenato e alguns colegas ficaram muito ofendidos, porque pensaram que eu estava a pôr problemas que ainda não se sentiam. O meu bispo apoiou-me sempre muito.

Em 1961 já pedíamos uma reforma agrária no Alentejo. É claro que levei muita pancada dos monárquicos e dos latifundiários. Vivi essas lutas todas. A seguir ao Concílio, viajei pelo país todo, a falar da “Lumen Gentium”. De 70 a 73, fui regularmente a África. Estive para ir para Moçambique como bispo auxiliar de Lourenço Marques. O D. Francisco Nunes Teixeira veio cá de propósito para isso. Mas o D. Agostinho disse: “Não, não. Estão todos para se virem embora e agora é que você vai?” E trocou. Não sei se foi bem, se foi mal… Depois tive a sorte de ir para Lisboa, com o Cardeal Ribeiro, que era pessoa muito formal, mas que me deu sempre carta branca. Não era de muitas confidências. Fiquei com o Oeste. Foram seis anos de um entusiasmo e abertura extraordinárias.

Como foram os seus primeiros anos de bispo?

No início do meu ministério como bispo, apanhei o 25 de Abril e o “Verão Quente”. Nas reuniões da conferência expunha as minhas ideias e os bispos mais velhos diziam: “Não discorde do Patricarca…” “Eu sou um bispo da conferência episcopal como os outros; posso dar a minha opinião”, dizia eu. E o D. Manuel Alexandre Rocha acres-centava: “Há-de aprender, há-de aprender. Nunca se discorda do Patriarca”. Mas o Patriarca compreendeu que eu podia ter mais ou menos experiência, mas tinha amor à Igreja e queria que as coisas andassem. Mais tarde [já na década de 1990] o Patriarca Ribeiro ficou aborrecido, quando dei uma entrevista ao Diário de Notícias contra a televisão da Igreja. Discordei totalmente do canal para a Igreja. Era de opinião que a Igreja não tinha potencial económico. Para viver da publicidade, tinha de fazer cedências. E isso não queríamos. O Patriarca não esperava isto. Gerou-se alguma tensão numa reunião dos bispos, mas tudo se resolveu. Sempre tive essa capacidade de não ficar com rancores. Noutras reuniões, quando as discussões começavam a patinar, o Patriarca suplicava-me que eu tivesse intervenções na assembleia. Fazia-me sinais.

Voltando à pergunta, como avalia os seus cinquenta anos de padre?

Vivi um tempo privilegiado. As coisas não me caíram em cima. Eu lutava por elas. Não lutava para ter poderes. Lutava no sentido em que a vida me empurrava e eu tinha sensibilidade para isso. Foi uma graça. Tive bispos muito amigos.

Revendo a minha vida, sinto que Deus me foi conduzindo. Até por algumas doenças graves que me humanizaram muito no sentido de compreender a dor. Sinto que fui preparado espiritualmente para compreender os doentes e os idosos. Tenho muitos defeitos e omissões. A carga das omissões é uma coisa terrível, mas não sou de me angustiar.

Jogo de palavras

“Tenho uma paixão especial por Paulo VI”

O Correio do Vouga pediu ao Bispo de Aveiro que revelasse o que imediatamente pensa sobre estas pessoas, grupos ou situações.

João XXIII

Um homem que deu novidade à vida da Igreja e que eu tenho muito no meu coração.

Paulo VI

Um grande lutador, um grande Papa, por quem tenho uma admiração extraordinária. Tenho por ele uma paixão especial. Foi ele que me fez bispo e teve comigo vários gestos, um dos quais no primeiro ano da minha ordenação episcopal. A basílica de S. Pedro estava cheiíssima. Estava lá eu e um bispo belga, missionário, velhinho. O Papa viu-nos e disse: “Irmãos bispos, venham cá para ao pé de mim”. Mandou pôr duas cadeiras ao lado dele e disse: “São tão bispos como eu. Vivemos em comunhão”. Fez ali uma catequese sobre o colégio episcopal; e no fim mandou-nos dar a bênção com ele.

Uma outra vez foi no fim de uma grande audiência, onde estavam trinta e tantos bispos e padres relacionados com os neocatecumenais. Falou do baptismo, da renovação do baptismo mas nunca dos catecumenais. No fim disse: “Agora quero ficar com os meus bispos”. E depois disse-nos: “Cada um tem o discernimento do Espírito tal e qual como eu. O que pensam disto?” São dois gestos impressionantes. Marcam para a vida toda.

João Paulo II

Escolhido por Deus para um momento próprio da vida do mundo. Homem de um vigor extraordinário. Tem uma mentalidade própria, mas marca a história da Igreja como um grande papa.

D. Manuel de Almeida Trindade

Serenidade, paz, o não exagerar os problemas. Um grande bispo e amigo com quem me dei como Deus com os anjos, durante sete anos.

D. José Policarpo

Um velho amigo, que admiro nas suas capacidades, que marcou seis anos como presidente da CEP, que ajudou a crescer a conferência episcopal.

Clero de Aveiro

Gente generosa, lutadores apostólicos, talvez, por vezes, com pouca abertura ao conjunto geral da vida da Igreja.

Depois de Aveiro

Quero continuar em Aveiro. E que o depois – da responsabilidade do novo bispo – me permita dar a Aveiro e à Igreja aquilo que está nas minhas possibilidades.

Universidade de Aveiro

Uma escola exemplar, que também nos tem ajudado a todos a ter qualidade no nosso próprio trabalho. Admiro-a e respeito-a na sua autonomia, porque também respeita a Igreja.

Seminário de Aveiro

Uma esperança permanente e uma visão nova na vida da Igreja, porque não serve só para formação de padres, mas também de agentes pastorais em todas as dimensões.

Jovens

Mais do que uma esperança, uma certeza que temos de saber aproveitar.

Leigos

Imprescindíveis na vida da Igreja, porque são a maioria e porque têm experiência e capacidade que os padres não têm. Sem atenção a eles não é possível uma renovação pastoral.