1 – A experiência própria e o contacto com realidades mais amplas levou-me, nestes dias, à constatação de que, muitas iniciativas de valor, organizadas por esse Portugal fora, no âmbito da reflexão dos valores cristãos, no campo da formação cristã, isto é, da capacitação para estar presente no Mundo com razões da fé e com motivações para agir, têm sido escassamente aproveitadas.
2 – Constatar não é fazer juízos de valor. Mas eles decorrem naturalmente da observação. Sabendo, como sabemos, que as mutações culturais hoje são velocíssimas, que as “metástases” das problemáticas se desdobram em ritmos frenéticos, os cristãos estão tão fortemente empenhados na reflexão não institucional que dispensem as oportunidades que lhes são concedidas? Isto é: têm alimento – de leitura, de círculos habituais de encontro, porventura de consulta via Internet… – que os saciem e os tenham perfeitamente aptos para serem o fermento, o sal, a luz, que a sua graça baptismal reclama que sejam?
3 – As atitudes de omissão continuam. As escolhas denunciam, às vezes escandalosamente, incongruências com os valores evangélicos feitos critério de vida, assumidos como princípios morais do agir. Não parece, por isso, que o alimento seja nem suficiente, nem adequado. Também com os venenos podemos ter a sensação de saciados!
4 – Sabemos que a Igreja não é o Reino de Deus. Mas ela é sacramento desse Reino, a face visível dos valores a semear no meio da Humanidade, que nós também somos. Longe de pretensões de restauracionismos institucionais, não podemos – isso de modo algum! – deixar degradar a qualidade do fermento. Ser resto fiel do Povo no seio da comunidade humana reclama uma cada vez mais intensa vida no mundo sem ser do mundo. A coragem de ser diferente – o testemunho que as culturas esperam – implica firmeza e humildade: para saber sempre qual o contributo de esperança que podemos dar; para estar sempre disponível a dar esse contributo, sem pretender impor-se ou esperar dividendos. E isto reclama uma renovação e inovação constantes: do nosso ser, do nosso pensar; da nossa capacidade e iniciativa pastoral.
5 – Nem saciados, nem indiferentes! A Quaresma reclama uma conversão: avaliar os caminhos andados, mas para olhar o futuro! Sentir as exigências, novas a cada momento, e voltar-se para o inesgotável testemunho escandaloso da Cruz, fonte onde se bebe a sede sempre insaciada de dedicação, de entrega acrescida, que se não compraz com saciedade nem indiferença!
