Por uma cultura eucarística

Modelos, atitudes e valores A harmonia da celebração não provoca a graça, mas condiciona o seu acolhimento e crescimento no coração humano, na assembleia reunida, na comunidade organizada, na sociedade em processo de humanização, na qual se inserem os cristãos revigorados por essa mesma graça sacramental.

A harmonia exige, antes de mais, sintonia com os sentimentos de Jesus Cristo, maravilhosamente expressos na fórmula da consagração: pão que é corpo entregue e vinho que é sangue derramado por todos, por um mundo sem pecado, por uma nova humanidade. Esta sintonia constitui o ponto de partida e a meta de chegada, estando sempre presente ao longo de todas as fases do percurso de cada pessoa e da própria comunidade.

Na escola da eucaristia, revivem os cristãos este modelo existencial e aprendem progressivamente a configurar-se com ele, a assumir a escala de valores que comporta, a fazer-se doação, a cultivar uma relação sensata com os bens, a estar presente na sociedade, a criar a civi-lização do amor e consequente “cultura eucarística”.

Esta cultura leva-nos a ver um “outro eu” em qualquer ser humano, em toda a pessoa, a partir da nossa comum natureza; a reconhecer a missão original que Deus nos confia e a que todos temos direito/dever de dar uma resposta positiva e solidária; a construir uma sociedade assente na rede de relações humanas, organizativas e funcionais, que brotam da natureza social de cada pessoa e se desenvolvem pelo esforço, pela educação/ensino e por outras forças intervenientes, sem esquecer a própria graça divina.

Aquela escala de valores dá prioridade ao bem comum e à verdade genuína, à função social dos bens, à gratuidade e ao consumo responsável alicerçado no comércio justo. Assenta em atitudes que ajudam a pessoa a ser mais e não apenas a ter em abundância, e a sociedade a humanizar-se, como um todo, em que se presta atenção especial aos espoliados da sua dignidade.

Dessas atitudes destacam-se algumas pelo valor e pelo contraste com a mentalidade predominante: a responsabilidade por um mundo dominado por “ídolos” deslumbrantes que, de facto, ocupam o espaço de Deus; a sobriedade no uso dos bens que constitui uma verdadeira terapia face ao consumismo crescente; a sabedoria de apreciar o que se tem e de controlar o desejo ilimitado de possuir; a solidariedade e justiça no trabalho, ainda que seja necessário reduzir o horário laboral para que todos possam ter emprego; a reforma contínua da educação, com abertura plena à integralidade da pessoa e de todas as dimensões da sua realização; a revalorização da família e do casal heterossexual como seu fundamento nuclear, a aprendizagem da gratidão e da gratuidade; a valorização do tempo liberto de “ocupações úteis”para revigorar as próprias forças interiores e lançar “pontes de contacto” com os demais, vivendo o amor que se faz serviço.

Quem se deixa “moldar” pela cultura eucarística torna-se solidário e sensível, generoso e serviçal, livre e participativo, profeta das boas notícias, lutador por todas as causas dignas, aberto ao universal sem descurar a situação local, contestatário das forças que geram a degradação e a injustiça, rebelde perante a iniquidade, apoiante crítico e, por vezes, dissidente do poder político ou da autoridade religiosa, interiormente liberto, fiel às convicções fundamentais, sincero, fraterno com todos e filial em relação a Deus Pai, como Jesus Cristo, dentro do possível.