A purificação que nos faz bem

Catequeses Quaresmais A preparação já é festa. Diz o povo, citado por D. António Marcelino na segunda catequese desta Quaresma, que “há mais festa na preparação do que na festa propriamente dita”. A preparação já é festa. E de facto, a preparação dos grandes momentos, a ansiedade do encontro, os cuidados postos nos pormenores… tudo isso é parte apetecível da festa. Com a Eucaristia é um pouco isso que acontece. Aliás, é essa antecipação enquanto parte integrante (que tem correspondência no prolongamento da acção de graças) que permite levar uma “vida eucarística”. Na catequese da última sexta-feira a preparação chamou-se “purificação”: “Convocados como filhos de Deus. Para quê? Um encontro que exige purificação”.

Nem só de confissão vive o ser humano. Se a preparação passa pela purificação, valerá a pena ter mais consciência dos momentos que a possibilitam. Pode ser, certamente, o sacramento da confissão antes da missa. Mas a própria eucaristia está cheia de momentos purificadores. Recordou o Bispo de Aveiro: o rito penitencial em que o padre deixa de falar em “vós”, para dizer “nós” (“confessemos”, “reconheçamos”, “tenha compaixão de nós”); o Pai-Nosso, com o “Livrai-nos do mal”; o “Cordeiro de Deus”; ou a frase do centurião romano repetida em todas as Eucaristias: “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada”. E em algumas igrejas, ainda persiste o hábito da água benta (que só o realismo pastoral, para evitar usos supersticiosos, levou a abandonar). Lembrava o baptismo e era um apelo à purificação: “Aspergi-nos, ó Deus, e nossa alma ficará como deve. Lavai-nos, ó Deus, e seremos mais brancos do que a neve” (salmo traduzido e adaptado pelo próprio D. António quando jovem).

Reconhecer os pecados é igual a humilhação? Este poderá bem ser o ponto que afasta da Eucaristia (talvez mais inconsciente do que conscientemente), ou até do cristianismo. Mas reconhecer-se pecador para melhor celebrar, equivale a ter-se em má conta? Não. “Confessar a Deus todo-poderoso é acusar e reconhecer, é deixar que Deus faça a verdade na nossa vida”. Por outras palavras, reconhecer os pecados é pedagógico. Ajuda a crescer, desde que não se caia nos exageros dos jansenistas. (Essa corrente do cristianismo – séc. XVII- que considerava o ser humano sempre indigno de se aproximar de Deus). “Ora, Deus quer que nos aproximemos. Convida-nos!”, lembra o bispo de Aveiro.

Transformação. “A resposta de Deus [ao pecador] depende da verdade de quem pede e do espaço interior que disponibiliza para receber. No caso do perdão do pecado, [Deus] lê no fundo do coração e aí perscruta essa verdade e disponibilidade”, escreve D. António na folha que distribui aos participantes das catequeses quaresmais. E acrescenta: “Toda a renovação pode começar no momento em que nos reconheçamos pobres, mendigos do dons de Deus, postos à nossa disposição com tanta generosidade em cada celebração da Eucaristia”. J.P.F.

A próxima catequese quaresmal tem como tema: “A força determinante da Palavra de Deus. Só escuta de verdade quem responde ao que ouviu”. Sexta-feira, 4 de Março, no Salão de S. Domingos (por cima da Livraria Santa Joana), às 21h15.