Mudança: Conveniência ou inteligência

1 – Acontece em variadas circunstâncias. A pessoa humana é capaz de se interrogar e de interrogar, é capaz de fazer análise e de concluir. É capaz de indagar o sentido profundo das coisas. Diante de novas realidades e situações, face a novas problemáticas e conjunturas, pode avaliar as suas próprias ideias e convicções: para concluir que não está no caminho mais certo e mudar; para consolidar as mesmas ideias e convicções. Diríamos que mudar, naquilo que não é o essencial, é, normalmente, um sinal de inteligência e sensatez.

2 – Já a questão é diferente quando, vinculados a determinado estatuto de pensamento, de convicção religiosa, de prática social habitual, desenhamos e seguimos um perfil de pessoa humana, de sociedade, de relação com os valores, que gera uma matriz cultural bem definida. Como seres sociais, identificamo-nos com um determinado espectro, que exclui a possibilidade de perfilharmos convicções, ideias, valores, vinculados a outros espectros, os quais são a antítese daquele em que nos situamos – sejam eles sociais, políticos ou religiosos. Com a agravante de que as várias vertentes das opções se implicam mutuamente.

3 – Mudar, com todas as consequências, situa-se no âmbito da liberdade. E, como a liberdade arrasta consigo a responsabilidade, ninguém pode estranhar que se conclua, acerca de quem mudou, que as suas opções agora são outras, que não poderá continuar a identificar-se com o espaço em que se movia anteriormente. Isto é: um quadro institucional determinado de opções exclui a possibilidade de permanecer identificado com outro. O que não quer dizer que, por princípio, não se possa ser movido por pretensos objectivos comuns.

4 – O problema coloca-se, a meu ver, quando se pretende continuar identificado com um espaço e se oferece a colaboração a outro, de todo antagónico, em muitas das suas concretizações, sob a plataforma do estatuto de independente. É aqui que reside a minha dificuldade: que margem de independência, de afirmação própria, temos nós, quando nos vinculamos a desenhos político-partidários tão explícitos nas suas opções, tão claros nos seus programas, frontalmente opostos às nossas convicções de fundo?

5 – O tempo o dirá. Importa, na sociedade democrática, respeitar as opções. E dar o benefício da dúvida, isto é: esperar o tempo necessário, para que se veja em que resultaram as novas opções. Atentos, sem dúvida, a que maiorias ou minorias não tenham sido atractivos que substituam democracia; atentos a que confessas intenções de servir melhor a causa comum não venham a revelar-se propósitos de proveitos pessoais.