Jornalismo desportivo aveirense mais pobre

António José Bartolomeu, 57 anos, jornalista da rádio Terra Nova e funcionário da Câmara Municipal de Aveiro, faleceu no dia 19 de Maio, no Hospital de Aveiro. O seu funeral realizou-se em Cacia

A notícia bateu-me forte. Foi na quinta-feira, dia 19 de Maio. O Tó Zé era o meu companheiro nas tardes desportivas de domingo, aos microfones da Rádio Terra Nova. Era um amigo e um mestre!

Comecei a trabalhar com ele na brincadeira e aos poucos penso que fomos fazendo uma boa equipa. “Porreiro, pá! Foste muito bem!”, dizia-me ele no fim dos jogos, mesmo naqueles em que eu metia uma ou outra argolada, daquelas menos radiofónicas.

Três ou quatro dias antes do jogo com o Carregado, liguei-lhe para combinar os pormenores. A sua voz estava diferente. A doença, que há uns anos o tinha afastado dos relvados, tinha voltado… “Vou ser operado”. Quase não tive palavras. “Vai tudo correr bem”, disse-lhe sem saber o que dizer. Mesmo no hospital, foi desenvolvendo alguns dos contactos necessários ao que tínhamos programado. Voltei a falar com ele mais uma vez nesse dia. Foi a última vez.

O jogo correu bem, quer dizer, foi um “golo, golinho, golão, a bola entrou, o Beira-Mar marcou!”

O jogo não foi nada de especial, mas deu para fazer festa! Como gostava de ter estado com ele a fazer a festa. Lembro-me de como saímos tristes dos jogos frente ao Penafiel, Santa Clara ou Freamunde. O caminho para o carro foi difícil. Doía o coração. Afinal o nosso Beira-Mar não tinha ganho e as exibições tinham deixado muito a desejar. Naqueles metros íamos falando, quase calados, sobre o que tinha corrido mal. Sentíamos aquelas derrotas e era quase em silêncio, a olhar a calçada, que tentávamos animar-nos. Soltávamos frases catárticas, como “aquela substituição devia ter sido mais cedo” ou “como foi possível falhar aquele golo?”, “Eh pá…”, tentando arranjar uma desculpa que fizesse o peito doer menos.

Eh pá, Tó Zé! O que foste fazer…?

É com um sorriso que me lembro de te ver a gritar os golos do Beira-Mar, em Santa Maria da Feira. Tu, debruçado sobre a cadeira, com o punho a declarar vitória, mas escondido q.b. do público que estava a poucos centímetros de nós. O teu sorriso a olhar para mim, quando me pediste para comentar o golo! Acabámos por sair de lá com a vitória! Foi um bom jogo! Eh pá Tó Zé… Tinha tanto a aprender contigo. Tinhas tanto a ensinar!

Como alguém dizia, os amigos não devem morrer. Mas acredito que Deus, esse “egocêntrico”, tem mais um santo junto dele! Obrigado por tudo!

Pedro Martins