1 – O senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, na sua homilia em Fátima, no passado dia 13 de Maio, teve a ousadia de afirmar profética a coragem de João Paulo II, ao sublinhar o carácter sobrenatural e a actualidade salvífica das aparições de Fátima, contribuindo para a credibilidade eclesial e para a dimensão universal do que se passou e passa em Fátima. Para D. José Policarpo, a actuação do saudoso Papa integra as aparições de Fátima na actual história da salvação.
2 – Não está, de modo nenhum, a extrapolar o valor do acontecimento Fátima. Sabemos que a plenitude da Revelação é a pessoa, o acontecimento de Jesus Cristo: toda a manifestação da Sua pessoa, as palavras e os gestos, os factos da Sua vida, são a expressão total do plano insondável de Deus, que nos foi revelado nestes tempos que são os últimos (Cf. DV 4). Por isso, com a morte dos Apóstolos, não há que esperar mais qualquer espécie de Revelação. As revelações particulares serão dignas de crédito na medida em que nos sensibilizam, nos despertam, nos ajudam a aprofundar aspectos dessa Revelação – na medida em que tornam mais compreensível a Revelação e veiculam, desse modo, a salvação no mundo de hoje.
3 – Na realidade, entre outros aspectos, Fátima sublinha uma estreitíssima união ao Santo Padre, um amor límpido à sua pessoa, uma obediência alegre ao seu Magistério. E essas são manifestações claras de comunhão eclesial, indiscutivelmente um aspecto essencial da Revelação. Não se trata de “papolatria”. Trata-se de acolher o sucessor de Pedro como o garante da unidade da Igreja de Jesus Cristo, a figura sacramental do Bom Pastor, que serenamente confirma os seus irmãos na fé e a todos nos oferece um arrimo neste caminho esforçado da verdade – serviço que, aliás, Bento XVI, se propõe oferecer ao Povo de Deus, como humilde servo do Senhor. Na realidade, Fátima, sendo sempre o lugar onde a Igreja se reúne, seguindo o seu Pastor, acatando a sua palavra, rezando pelo que ele reza, desejando o que ele deseja, sofrendo com ele pelo triunfo do Reino de Deus, está a honrar Maria, que aqui manifestou o seu papel peculiar na história da salvação, está a construir a Igreja sobre o alicerce de Pedro.
4 – Fátima é um convite à viva actualização permanente da Mensagem, que, como mensagem de salvação, passa pela expressão do mistério da Igreja, sacramento universal de salvação. Fátima é lugar de conversão, pela penitência e pela oração, e, devido à sua internacionalidade, pode expandir a sua fecundidade salvífica nos quatro cantos da terra, participando da universalidade do ministério de Pedro. Ou seja, Fátima tem responsabilidades de se tornar uma escola de comunhão e de oração, de acolher e ofertar essa indispensável experiência de fé, de vivência eclesial, a todos os que vêm com um coração recto, peregrinos da verdade e do amor.
5 – Um legado profético, esta relação tão estreita que João Paulo II configurou entre o Papa e Fátima, entre Fátima e o Papa. Pela sua amorosa relação com a Virgem Maria. Mas também pela sua paixão pela Eucaristia, outro dos aspectos essenciais do acontecimento Fátima. Muitos têm vindo a reconhecer o Senhor Jesus no íntimo diálogo silencioso com o Amigo escondido, aqui vivido, como no partir festivo do Pão. E essa é a vivência estruturante de uma comunhão eclesial sólida, que acolhe o Papa como garante da unidade.
