O Papa está canonizado!

1 – O Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, chama-lhe “vaga de fundo”, a este movimento nascido no fim dos dias terrenos de João Paulo II, mas sobretudo por ocasião do seu funeral: “santo subito”, que os nossos hábitos de manifestação gritariam “santo já!”. Vaga de fundo, sim, porque ela tem a dimensão da humanidade, independentemente de credos ou raças, e a profundidade do coração humano e da imensidão do oceano da interioridade espiritual.

2 – Não seria a primeira vez na história que alguém seria “canonizado” por aclamação. E, embora as coisas tenham mudado bastante, para salvaguardar entusiasmos menos lúcidos ou manipulados, foi claro que, em relação a Karol Wojtyla, a manifestação foi rezada e meditada, resultando espontâneo o clamor pelo reconhecimento da santidade. Recordemos que Aveiro invoca a sua Padroeira como Santa Joana, sem nunca ter sido “oficialmente” canonizada; apenas foi beatificada. E é precisamente este reconhecimento popular da heroicidade da sua virtude que leva a que Paulo VI a institua Padroeira da Diocese e da Cidade.

3 – A canonização é a proposta de alguém, da sua vida, da sua vida de fé, como exemplo, como regra (cânone), para os cristãos, para todas as pessoas. O processo de beatificação e canonização não é apenas para aferir da sua intercessão miraculosa; é também para fazer uma leitura avisada do seu percurso. A vida de João Paulo II esteve ao alcance de todos; a heroicidade da sua entrega é reconhecida por todos; a sua contínua identificação com Jesus Cristo, o seu lento mas firme mergulhar na Paixão do Redentor, foi visível a todos; a sua confiada submissão a Maria foi distintivo constante do seu operar, verificado por todos; a sua expressão do amor misericordioso de Deus tocou a todos, com especial predilecção pelos mais pobres dos pobres; a sua paixão permanente pelas causas da pessoa humana (a vida, a família, a educação, a justiça, a paz, o pão…), na luz do Homem perfeito, Jesus Cristo… envolveu a todos. Aí estão, todas estas facetas, como regra de santidade, como caminho de vida, para todos!

4 – Aí está a resposta adequada a Estaline, que, quando se tratava do Vaticano em política internacional perguntava: “Mas quantas divisões tem o Papa?” Na realidade, o Santo Padre não tem divisões militares, não tem exército, porque, à semelhança do Mestre, o Reino que levou ao longe e ao largo, pelo qual esgotou as suas energias, “não é deste Mundo”. Certo é que, com a couraça da Fé, com o impenetrável escudo da Esperança, com a transparente armadura da Caridade, derrubou blocos, inverteu sistemas, uniu vontades, converteu corações! E as suas exéquias foram um hino à serenidade, à paz, ao transcendente, uma expressão nunca vista dos efeitos que o Amor de Deus derramado sobre a Humanidade pode produzir.

5 – O Papa está canonizado! O testemunho da sua vida atravessou as fronteiras do espaço e do tempo e brilha já num Mundo de Glória. Poderão ser mais ou menos morosos os processos que inscrevam S. João Paulo II (ou S. Karol Wojtyla? – É o mesmo, porque ele foi um só!) no calendário litúrgico das celebrações da Igreja. Mas temo-lo já como exemplo e intercessor. E isso anima esta Igreja, que, santa na sua fundação, é pecadora nos seus membros, uma vez que “se ele, por que não nós?”