É necessário proibir publicidade de comida dirigida a crianças

Isabel do Carmo, médica endocrinologista Vive-se actualmente uma “epidemia da obesidade”. Em Portugal, mais de metade das pessoas têm peso a mais. E, entre as crianças, é “assustador” o aumento do número de casos de obesidade. Por duas razões, diz Isabel do Carmo: pela generalização da comida hipercalórica, “saborosa e de fácil deglutição, mas cheia de açúcares e gordura”; e pela falta de exercício físico. “Em frente da televisão, gasta-se menos calorias do que a dormir. É uma espécie de anestesia”, afirma a endocrinologista, que esteve na paróquia da Vera Cruz, a convite de Escola de Pais (organização de base paroquial, que promove acções de Pastoral Familiar), na noite de 7 de Maio. O tema do encontro foi “Doenças do comportamento alimentar”. O Correio do Vouga colocou-lhe algumas perguntas.

Por causa da “epidemia da obesidade”, algumas pessoas têm sugerido que os alimentos que engordam tenham avisos como os do tabaco. Concorda com medidas semelhantes?

Algumas já foram aprovadas no Parlamento Francês. A proposta mais radical era que não houvesse de todo publicidade a esses alimentos. Depois, os lóbis agro-alimentares fizeram uma grande força e acabaram por chegar a acordo: que alguns alimentos publicitados sejam acompanhados por uma indicação dizendo que fazem mal à saúde, porque são ricos em gorduras e açúcares. Isto vai entrar em vigor a 1 de Setembro, em França. Ou então pagam uma taxa, para a agência alimentar empregar na divulgação destas coisas.

Está de acordo com a proibição de máquinas de doces e bebidas gasificadas nas escolas?

Completamente. Não há outro caminho. Deviam ser proibidas as máquinas e também a publicidade nos programas para crianças e adolescentes.

Como é que os pais podem educar para uma boa alimentação?

É muito importante que os pais, em casa, dêem comida saudável aos filhos. Ou seja, que dêem leite, iogurte, vegetais, e depois, também, carne, peixe, massas e arroz. É muito importante que não tragam do supermercado a comida com muitas calorias; chocolates, doces, batatas fritas, gelados. É uma economia não comprar essas coisas e, por outro lado, não as levando para casa, as crianças não as têm à mão e não as comem. Até aos cinco anos, isto é fundamental, porque até essa idade as crianças não têm autonomia para ir comprar e fazem o que os pais lhes dizem para fazer. Aos seis anos é que as coisas já começam a ser mais complicadas.

Mas a prevenção da obesidade não passa só pela alimentação…

As crianças têm que brincar. Julgo que aqui em Aveiro têm muito mais possibilidade de brincar, brincadeiras espontâneas, movimentarem-se, irem para a rua, correrem, fazerem jogos, jogarem à bola. Julgo que isto aqui é muito mais possível do que em Lisboa, por exemplo. Isso deve ser facilitado. Os pais devem resistir a terem demasiada segurança, a terem medo.

A par com a obesidade, existem distúrbios alimentares opostos que levam à magreza…

Ao mesmo tempo que a sociedade é invadida pela comida hipercalórica, também é vendida a imagem da rapariga perfeita, magra, com uma magreza extrema, como padrão de beleza. Muito poucas pessoas resistem a serem puxadas para a comida, por um lado, e para o elogio da magreza, por outro. O elogio da magreza traz depois a anorexia nervosa e bulimia nervosa, consequência destas duas forças contrárias.

Em que consistem essas doenças?

A anorexia nervosa aparece nas adolescentes de 12-16 anos, que, voluntariamente, passam a comer muito pouco. Ficam muito magras, mas continuam a pensar que estão gordas. Até parece que estão a brincar connosco.

A bulimia nervosa é a ingestão compulsiva de comida, que depois é deitada fora através do vómito provocado. Quatro em cada cem raparigas têm bulimia nervosa.

Estas doenças estão no extremo da “epidemia da obesidade”. É difícil o equilíbrio…

O ser humano tem muita dificuldade em ser equilibrado.