Questões Sociais A «hibridização» da empresa e da economia é uma ideia operacional básica, na recente encíclica de Bento XVI , «Caritas in Veritate». Segundo esta ideia, «a actividade económica não pode prescindir da gratuidade» (nº. 38). E, por outro lado, o Estado e as instituições sem fins lucrativos podem realizar actividades lucrativas, embora não prossigam o lucro como objectivo fundamental (ibidem). Deste modo, o princípio da gratuidade é (deve ser) integrado em todas as actividades humanas; e, «por isso, (…) é causa de graves desequilíbrios separar o agir económico (…) do agir político (…)» (nº. 36).
Na linha da encíclica de João Paulo II, «Centesimus Annus», a nova encíclica de Bento XVI considera necessária a existência de «três sujeitos» do sistema socioeconómico: «o mercado, o Estado e a sociedade civil» (nº. 38): o mercado é responsável, predominantemente, pelas actividades produtivas, em princípio lucrativas; o Estado, pela redistribuição, visando o bem comum; e a sociedade civil, pela acção solidária. Sem prejuízo desta especialização, há que ultrapassar diferenciações antagónicas; na verdade, «hoje podemos dizer que a vida económica deve ser entendida como uma realidade com várias dimensões: em todas deve estar presente, embora em medida diversa e com modalidades específicas, o aspecto da reciprocidade fraterna» (nº. 38).
Será realizável esta orientação papal? E não implicará uma substituição do sistem capitalista? – A encíclica não se pronuncia sobre a viabilidade da sua proposta; assume-a, sim, como imperativo inalienável. Está em causa «uma tarefa que não pode ser desempenhada só pelas ciências sociais, mas requer a contribuição» de outras tais como «a metafísica e a teologia para ver lucidamente a dignidade transcendente do homem» (nº. 53). Mediante este conjunto de saberes e de outros esforços é que se atinge a verdade, sem a qual a caridade fica deturpada.
Quanto à necessidade de mudança do sistema capitalista, a encíclica deixa bem patente que ela é indispensável, por motivos de ordem ética; e, citando João Paulo II, defende a «necessidade de uma revisão global do desenvolvimento» (nº. 23; cf. nº. 32). Porém, não opta por nenhum sistema em particular, até pelo risco de «totalitarismo» inerente a qualquer um, e aos respectivos processos de imposição (cf. nº. 53). Opta, sim, pela centragem em cada pessoa, em cada família, nos povos e culturas e em toda a família humana (nº. 53).
