Aveirenses Esquecidos Armando Andrade é um nome incontornável da pintura, escultura e cerâmica artística, a nível nacional. Mas está praticamente esquecido em Aveiro, onde deixou vasta obra e onde faleceu aos 77 anos de idade.
Armando Andrade nasceu em S. Vicente de Pereira (concelho de Ovar), no dia 19 de Maio de 1908, e faleceu em Aradas (concelho de Aveiro), no dia 24 de Fevereiro de 1986, depois de uma intensa vida artística que o levou a passar pelas mais credenciadas fábricas de cerâmica do país e ainda com passagens por França e Brasil.
Apesar de oriundo de uma família de modestos agricultores, desde muito cedo que Armando Andrade começou a manifestar a sua veia artística, em especial como escultor, referindo os seus biógrafos que com apenas nove anos de idade já esculpia bonecos em madeira, utilizando como ferramenta um canivete. Após a instrução primária, com a idade de 13 anos, por sugestão de Pedro Cachapuz, este “ilustre desconhecido” seguiu o mesmo itinerário do caulino retirado das minas de S. Vicente de Pereira até à famosa Fábrica de Porcelanas da Vista Alegre, onde frequentou aulas de desenho, com o mestre pintor cerâmico Cândido da Silva. Em simultâneo, frequentou o curso nocturno da Escola Industrial Fernando Caldeira, em Aveiro, na qual teve como mestres de desenho e de modelação / escultura, respectivamente, Silva Rocha e Romão Júnior, tendo sido condiscípulo de grandes nomes das artes aveirenses, designadamente João Calisto, João Marques de Oliveira (Lavado) e Manuel Tavares.
A qualidade inata para as artes e o gosto em aprender com os melhores mestres do seu tempo e do seu meio fizeram que, com apenas 18 anos de idade, Armando Andrade chefiasse a secção de escultura da Vista Alegre.
Ainda em vida, no ano de 1985, Armando Andrade foi alvo de uma grande homenagem, que decorreu em Aveiro e em Ovar, com a realização de uma exposição constituída por várias dezenas de obras: 25 telas a óleo, 22 medalhas, três peças em galvanoplastia, 18 esculturas (em madeira, barro, gesso, faiança e porcelana), 17 desenhos e ainda 26 obras de cerâmica artística, sendo seis executadas na Artibus, nove na Vista Alegre e 11 na Primagera. Propositadamente para essa exposição, a Associação para o Estudo e Defesa do Património Natural e Cultural da Região de Aveiro (ADERAV) editou um catálogo que continua a ser uma das poucas obras bibliográficas sobre Armando Andrade. Por altura da passagem do centenário do seu nascimento, o jornal vareiro “João Semana” assinalou a data.
Mestre de gerações
de ceramistas
Apesar das suas qualidades inatas para a escultura, Armando Andrade nunca esqueceu que a formação que recebeu foi fundamental para aprimorar a técnica. Por isso, e como então acontecia em muitas empresas de cerâmica artística, tornou-se um verdadeiro mestre para os formandos que frequentavam essas “escolas de arte”. De entre esses seus colaboradores destacam-se, entre outros, os escultores José Duarte dos Santos Vidal (que chefiou a secção de escultura da Vista Alegre), Jorge Figueiredo, Carlos Calisto (da extinta “Ibis”), Manuel Rodrigues e J. Mário Bodas.
Artista multifacetado
Armando Andrade era um artista multifacetado, com obra de grande mérito na escultura, na pintura, no desenho e na cerâmica, tendo exposto em algumas das melhores galerias do país, incluindo elitistas como o Salão Silva Pinto (Porto) e a Sociedade Nacional das Belas Artes (Lisboa), nas quais expôs pintura, escultura e desenho.
Na pintura, tanto a óleo como a aguarela, e no desenho, Armando Andrade foi um exímio retratista e paisagista, dando grande atenção ao pormenor, ao olhar e às feições, tornando as suas obras “vivas” e “reais”, sobretudo no desenho. Também na escultura, nomeadamente nos bustos e nas medalhas, essa procura de perfeição e de “retrato” foi levada ao extremo.
No entanto, foi na cerâmica artística que mais se evidenciou profissionalmente, tendo concebido trabalhos de pintura, de escultura e de modelagem que ainda hoje cativam a atenção dos críticos e admiradores dessa arte que teve na região de Aveiro a “capital nacional”.
Empresas onde trabalhou
Armando Andrade teve uma vida profissional bastante activa, tendo colaborado com inúmeras fábricas de cerâmica. Em todas elas deixou obras de referência com estilo muito próprio.
Depois da fábrica de porcelanas da Vista Alegre, onde iniciou a sua actividade como escultor e modelador cerâmico, e à qual voltou posteriormente, Armando Andrade passou por empresas como a Fábrica de Cerâmica Artística do Carvalhido (Vila Nova de Gaia), Fábrica de Louças de Sacavém, Soares dos Reis (Vila Nova de Gaia), Lusitânia (Porto), Artibus (Aveiro), Raul da Bernarda (Alcobaça), SPAL (Alcobaça), Garranchos (Aveiro) e Faianças Primagera (Aveiro).
Pelo meio, trabalhou em Limoges, região francesa considerada “capital europeia da porcelana”, e no Brasil. Neste país, também restaurou obras de arte pertencentes a colecções de museus. Em meados da década de 1940, montou uma sociedade com Nelson Ribeiro.
Cardoso Ferreira
Testemunho de um grande mestre
“Armando Andrade pode integrar-se numa corrente que teve ilustres cultores entre nós – o chamado naturalismo de ar livre. A sua predilecção foi a paisagem (em que lhe integrava a figura humana e animais, elementos estes onde sentia num à vontade notório) e também a marinha”, escreveu o famoso pintor ilhavense Cândido Teles.
No catálogo editado pela ADERAV, Cândido Teles realça que Armando Andrade “pintou o retrato de Jorge VI da Inglaterra (que foi para este país) e de que há exaltadas referências críticas”. No final do seu texto, o artista ilhavense escreveu que “seria de muita justiça que das peças agora expostas alguma coisa viesse enriquecer as colecções dos nossos museus”. Passados 25 anos da publicação desse catálogo e da realização dessa exposição, o nome de Armando Andrade é mais um dos que integram a lista dos “desconhecidos ilustres aveirenses”.
