A Árvore de Zaqueu Era bem notória, a desajeitada linguagem de pescador impetuoso e inculto, e com experiência directa, não só profissionalmente, de que «um peixe fora da água» não dura muito tempo…
Segundo os «Actos», S. Pedro não podia escolher melhor data para produzir «a primeira encíclica», ou falar «ex cathedra»: aproveitou uma das três principais festas do judaísmo (Êxodo 23,13-19) – todas elas marcando os momentos mais importantes da actividade agrícola: o início («Pães ázimos»), o fim da ceifa e a colheita («festa das tendas»). Com o tempo foram ganhando novos sentidos e aglutinando-se com outras festas, de um modo ainda hoje objecto de discussão.
Ao princípio, a primeira festa não tinha ligação directa com a Páscoa: com efeito, a oferta de pães ázimos significava apenas a oferta da colheita do trigo «na sua pureza natural», sem a intervenção humana do fermento. A datação a partir do dia de Páscoa firmou-se com a primeira fusão de datas entre a festa dos Ázimos e a da Páscoa, a que se juntou o sentido da celebração da entrega da Lei a Moisés.
Sete semanas depois (ou 7 semanas depois da Páscoa), vinha a ceifa, também chamada a «festa das semanas». A estes 7×7 dias, seguia-se o dia da festa rija, «o quinquagésimo dia» (“he pentekoste hemera”, em grego), donde o nome de «Pentecostes».
Na «festa das tendas», já no Outono, dava-se a apanha das uvas e da azeitona: vivia-se festivamente em cabanas de ramos verdes, lembrando o modo de vida de Israel no deserto.
De imediato se vê como todos estes sentidos facilmente estão presentes, e com significado bem profundo, no Cristianismo.
O Livro do Êxodo admoestava todos os israelitas a que não faltassem a estas três grandes peregrinações. A multidão tornava-se tão imensa e diversificada, que S. Lucas não teve dificuldade em fazer uma lista quase exaustiva dos povos à volta, com línguas e costumes diversos. Com muita arte e sabedoria, preparou o cenário em que S. Pedro iria fazer uma «comunicação universal». S. Lucas não hesita em criar um ambiente quase fantástico, juntando os tradicionais símbolos de presença divina: línguas de fogo, vento, estrondo, e a novidade maravilhosa de as línguas humanas falarem o fogo e a aragem de Deus.
O evangelista não poupou as tintas mais fortes para gravar o essencial: a universalidade da missão dos discípulos de Jesus Cristo; a superação das barreiras linguísticas e culturais; a afirmação de uma comunidade «de espírito novo» perante «o mundo inteiro»; a ascensão de Jesus como «superior» à subida de Moisés ao Monte Sinai, tendo presente as características acabadas de mencionar, e tendo presente a natural «subordinação» de Moisés ao Messias, chamado por Deus «para se sentar à sua direita» (festa cristã da Ascensão). E por isso, «o Espírito de Jesus» é referido como «o Espírito de Deus», «o mesmo Espírito», como diz a leitura de S. Paulo, que pode estar em cada um de nós, permitindo que o dia a dia de cada qual, com seus dissabores, alegrias, ódios e amores, trabalho e descanso… anuncie a quantos se cruzam connosco porque é que vale a pena viver: festejar nas nossas tendas, com todos os povos, a colheita dos nossos trabalhos, dos nossos projectos, outros tantos prodígios na modelação do mundo e na partilha positiva de sentimentos (Actos 2,17-21) – que não é outra coisa senão a vida de toda a humanidade bem guardada onde nunca poderá ser destruída.
O «catedrático» S. Pedro deu uma lição clara e concisa, marcando o ponto central: «Foi este Jesus que Deus ressuscitou, e disto nós somos testemunhas». Tendo sido exaltado pelo poder de Deus, recebeu do Pai o Espírito Santo prometido e derramou-o como vedes e ouvis» (Actos 2,32-33).
Muitos «catedráticos» têm tentado explicar o inexplicável. Mas o extraordinário trabalho do nosso pensamento e razão não foi em vão: no seu esforço de cada vez mais amplo conhecimento, de cada vez mais razões articuladas, foi testemunhando que todos os modos de vida humana se podem harmonizar no mesmo Espírito.
Manuel Alte da Veiga
m.alteveiga@netcabo.pt
