Quando a cidade deixou de ter quatro freguesias para ter somente duas, foi destruído o seu templo mais antigo, talvez anterior à nacionalidade.
Há 175 anos (1836) decorria a demolição da Igreja de S. Miguel, considerada a mais antiga igreja de Aveiro e a sua primeira matriz, templo que se erguia no local hoje ocupado pela Praça da República e onde se ergue a estátua de homenagem a José Estevão.
Na origem da sua demolição esteve um alvará assinando por José Joaquim Lopes de Lima, primeiro governado civil (ou administrador geral) de Aveiro, em 11 de Outubro de 1835, documento que reduziu de quatro para duas as freguesias da cidade de Aveiro, uma em cada lado do canal da ria. Assim, as freguesias (e paróquias) de S. Miguel e do Espírito Santo deram lugar à freguesia da Glória, enquanto do outro lado do canal, as freguesias (e paróquias) da Vera Cruz e de Nossa Senhora da Apresentação formaram a freguesia da Vera Cruz.
Esse alvará deu azo a que se praticasse um dos maiores atentados de sempre ao património arquitectónico aveirense, uma vez que esteve na base da demolição de três das quatro igrejas paroquiais que então existiam na cidade: S. Miguel, Espírito Santo e Vera Cruz. A primeira começou a ser demolida ainda no final desse ano, enquanto a segunda, que se erguia junto ao actual Largo das 5 Bicas, fechou de imediato ao culto, ficando totalmente ao abandono, decorrendo a maior parte da sua demolição na década de 1840. No final do século XIX (1899) a Igreja da Vera Cruz, que se situava junto ao actual Largo Maia Magalhães, já estava totalmente demolida e, no seu lugar, estava a ser erguida outra igreja (como refere José Reinaldo Rangel de Quadros, no livro “Aveiro – Origens, brasão e antigas freguesias”, que nunca chegou a ser concluída. Das três, nos respectivos lugares, nada resta que perpetue a sua memória.
Rangel de Quadros, que no citado livro descreve pormenorizadamente como era aquele templo, tanto no seu interior como no exterior, refere que a porta principal da Igreja de S. Miguel (virada para a actual Escola Homem Cristo) era de “estilo romano, com uma inscrição em caracteres góticos, que dizia «que o Infante D. Pedro, filho de D. João I, mandara construir ou restaurar este templo em 1420»”.
No entanto, este autor considera que “é possível, que este templo fosse anterior à monarquia”, invocando o testamento da condessa Mumadona, documento datado de 959 e que é a primeira referência escrita a Aveiro.
No seu livro “Aveiro medieval”, Maria João Violante Branco Marques da Silva, escreveu que “dominando a vila, surgia a Igreja de S. Miguel de Aveiro, cuja data de fundação se desconhece. Já existia em 1209, quando apareceu mencionada no rol das igrejas de padroado régio pertencentes ao Bispado de Coimbra”.
Com a Igreja de S. Miguel, foi derrubada a Capela de Santo António, ou Capela dos Presos, porque se erguia frente à prisão, instalada no piso térreo do actual edifício dos Paços do Concelho, como refere José Ferreira da Cunha e Sousa, no seu texto intitulado “Memória de Aveiro no século XIX”, publicado no Volume VI (1940) do Arquivo do Distrito de Aveiro.
Cardoso Ferreira
