Revista Communio
Novos olhares sobre a Igreja
Outubro-Dezembro de 2010
Quem procurar nesta revista novos olhares sobre a Igreja – o tema de capa – desilude-se. Ou talvez não, se no contexto eclesial “novo” não se referir propriamente aos últimos tempos. A Igreja é multi-secular, multimilenar, pelo que “novo” pode referir-se às últimas décadas, ou, até, aos últimos séculos. De qualquer forma, este número da “Revista Internacional Católica” promete mais do que concretiza. Sinal mais claro da dificuldade de haver novos olhares sobre a Igreja católica – o mesmo é dizer que a teologia católica vive em relativa estagnação – é a afirmação final de Bento XVI, num texto que em 2005 proferiu à Cúria Romana (cardeais e bispos do Vaticano). Pretendendo reflectir sobre a “justa interpretação” do Concílio Vaticano II, afirma o Papa: “Se o lermos e recebermos, guiados por uma justa hermenêutica, ele pode ser, e tornar-se cada vez mais, uma grande força para a sempre necessária renovação da Igreja”. Por outras palavras, lidos só por si, sem os óculos de uma determinada linha (única linha?), podemos pensar que os documentos do Vaticano II comportam perigos?
Dizia o teólogo alemão Romano Guardini que “nunca descobriremos o mistério da Igreja senão depois de a conseguirmos amar. Somente depois”. Sem contrariar a maravilhosa frase, é preciso afirmar que amar a Igreja não é idolatrá-la, colocá-la acima de qualquer crítica, como parecem defender alguns quando teólogos mais críticos, como Hans Kung ou, à nossa escala, Anselmo Borges e Bento Domingues apelam a mudanças no interior da Igreja. Quais mudanças? Paulo VI disse na abertura da segunda sessão do II Concílio do Vaticano, após a morte de João XXIII, como recorda esta revista, que os fins principais do Concílio, “por motivo de brevidade e de melhor inteligência”, são quatro: “o conhecimento, ou se se preferir, a consciência da Igreja, a sua reforma; a recondução de todos os cristãos à unidade; e o diálogo da Igreja com o mundo contemporâneo”. Foi há quase 50 anos. É exagero afirmar que está tudo por fazer? Talvez os novos olhares sejam ainda os do Concílio.
