As palavras de Bento XVI dirigidas aos cristãos e a todos os homens de boa vontade, por ocasião do Dia Mundial da Paz são de uma preciosidade assinalável.
Sem desvirtuar a sua riqueza pela apropriação isolada, sublinho dois ou três períodos, que caem como sopa no mel na conjuntura portuguesa, de conflito aberto entre a ideologia no poder e a matriz cultural do nosso País.
“A busca sincera de Deus levou a um respeito maior da dignidade do homem. As comunidades cristãs, com o seu património de valores e princípios, contribuíram imenso para a tomada de consciência das pessoas e dos povos a respeito da sua própria identidade e dignidade, bem como para a conquista de instituições democráticas e para a afirmação dos direitos do homem e seus correlativos deveres”.
Só uma pertinaz cegueira voluntária nega ou oculta o contributo da religião para a longa caminhada de descoberta da dignidade pessoal e da identidade dos povos. Mesmo em aspectos que são tidos como vanguardistas, como por exemplo, a condição da mulher, a abolição da pena de morte, o respeito pelas minorias…, quem mais desinteressadamente tem andado na frente de batalha?
E, do mesmo modo a identidade dos povos, a defesa da sua matriz cultural própria. Esquecemo-nos muito rapidamente de Timor! Esquecemo-nos da resistência da Polónia, da defesa das populações autóctones em tantos países da África, da América Latina…
Não menor tem sido o contributo da Fé, das Igrejas, na resistência às ditaduras, no seu desgaste e desmoronamento. Somos patologicamente amnésicos quando nos convém! A vida das sociedades civis, dinâmica e resistente a autoritarismos, empreendedora e capaz de reinventar desenhos de democracia, tem na sua génese o carácter social dos indivíduos e a força dos grupos possuídos por convicções muito para além das fronteiras da matéria, do espaço e do tempo.
O apelo do Papa aos cristãos é para que continuem a estar na linha da frente, a serem fermento desse dinamismo, tão importante para os nossos dias e para o nosso País. “Também hoje, numa sociedade cada vez mais globalizada, os cristãos são chamados – não só através de um responsável empenhamento civil, económico e político, mas também com o testemunho da própria caridade e fé – a oferecer a sua preciosa contribuição para o árduo e exaltante compromisso em prol da justiça, do desenvolvimento humano integral e do recto ordenamento das realidades humanas”.
E a reafirmação da necessidade da transcendência na vida das pessoas, como motor de uma sadia vida social. “A exclusão da religião da vida pública subtrai a esta um espaço vital que abre para a transcendência. Sem esta experiência primária, revela-se uma tarefa árdua orientar as sociedades para princípios éticos universais e torna-se difícil estabelecer ordenamentos nacionais e internacionais nos quais os direitos e as liberdades fundamentais possam ser plenamente reconhecidos e realizados, como se propõem os objectivos – infelizmente ainda menosprezados ou contestados – da Declaração Universal dos direitos do homem de 1948”.
