Os missionários portugueses deixaram um contributo notável para a cultura dos povos

UMA VIDA DEDICADA À CATEQUESE P.e José Martins Belinquete, 80 anos, colaborador paroquial de Oliveira do Bairro e de Sangalhos, tem um longo percurso ligado à catequese. O seu ministério sacerdotal e pastoral iniciou-se precisamente como responsável do Secretariado Diocesano da Catequese, que abrangia, além da catequese paroquial, a Educação Moral e Religiosa nas Escolas (actuais 1.º e 2.º ciclos). Nestas funções sucedeu a Mons. Amílcar Amaral, o grande impulsionador da renovação da catequese na Diocese de Aveiro e, depois, a nível nacional, como director do Secretariado Nacional para que foi nomeado pelo Episcopado Português.

Em 1971-73, P.e Belinquete estudou Teologia (licenciatura) e Catequética (mestrado) no Instituto Católico de Paris. Regressado, continuou o trabalho da catequese com catequistas e párocos, sendo autor e co-autor de diversos catecismos e guiões, entre os quais se destacam “Nós queremos, seguir-Vos, Senhor”, “A caminho do Futuro”, “Iluminai o meu caminho” e “Companheiros de Emaús”. A história recente da catequese em Portugal passa também por este padre de Aveiro. Entrevista realizada por e-mail por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – Como lhe surgiu a ideia de escrever uma história da catequese em Portugal?

P.E JOSÉ BELINQUETE – A ideia partiu dum convite do P.e Valentim Marques, director da Gráfica de Coimbra, para eu fazer uma adaptação para publicação em português duma obra francesa sobre a catequese. Aceitei o convite sem saber o conteúdo dessa obra. Ao tomar conhecimento da obra, verifiquei que era, fundamentalmente, a história da catequese de França. Achei que fazer qualquer adaptação era sempre uma espécie de mutilação da obra que tinha a sua unidade. Além disso, os portugueses também tinham feito catequese há muitos séculos. Desde as suas origens, os povos que foram habitando esta parcela da Península Ibérica foram sendo cristianizados. Faltava era fazer a sua história, embora houvesse já sido publicada a história da catequese de uma das dioceses de Portugal, a Guarda, desde os seus começos até aos nossos dias, contendo também elementos sobre a catequese nos primeiros séculos da Igreja, e da Diocese do Funchal a partir dos anos 60. Há também algumas notas históricas sobre a catequese em Portugal no livro “A Catequese na vida da Igreja”.

O projecto alargou-se, mais tarde, aos territórios que estiveram sob domínio português…

Comecei a investigação, que incidia sobre os seguintes aspectos: qual a importância dada pelos bispos ao «ensino da doutrina cristã», manifestada nas deliberações dos Sínodos diocesanos e outros documentos pastorais, e sobre os catecismos que tinham sido elaborados no decorrer dos tempos. Ao chegar à época dos Descobrimentos, disse comigo: “Mas os portugueses não fizeram só catequese neste rectângulo «à beira mar plantado»; foram pelo mundo fora «fazer cristandade»”. Decidi seguir as rotas deles e ir pesquisar e estudar a catequese feita junto dos povos descobertos pelos portugueses: Índia/Goa e Costa do Malabar, Malásia e Singapura, Ceilão, Japão, China, Cambodja, Coreia, Vietname, Macau, Timor, Etiópia ou Abissínia, Cabo Verde, Guiné, Benim, Angola, Moçambique, Brasil e até ao longínquo Tibete. Saber quem foram os missionários, que línguas tiveram de aprender para fazer a evangelização e catequese desses povos, que catecismos fizeram nessas línguas, os Dicionários ou Vocabulários bilingues que também elaboraram, e foram muitos, bem como Gramáticas. Depois do estudo que fiz, posso dizer que foi uma epopeia não menos grandiosa, gloriosa e heróica do que a dos nossos marinheiros descobridores. Muitos deles também deram a vida ou gastaram-na nessa causa nobre.

Depois desta longa viagem, regressámos ao nosso torrão pátrio para continuar a nossa investigação pela Idade Média, até saber como teria vindo o Cristianismo para Sul da Península Ibérica e como teria sido a evangelização dos povos que habitavam estas terras. E já que estava com ‘as mãos na massa’, fiz o estudo da Catequese nos primeiros 5 séculos da Igreja. E, já agora, fomos até às ‘fontes’ – a catequese dos Apóstolos e a da ‘fonte das fontes’ – a catequese de Jesus.

Como resultado final, temos uma obra de quantas páginas?

Este trabalho de investigação da história e recolha de documentos, incluindo, sobretudo, catecismos nessas diversas línguas, foi publicado em dois volumes num total de mais de 1.600 páginas.

Quanto tempo levou a concretizar este projecto desde o início da investigação à publicação?

Este trabalho foi feito ao longo 15 anos.

A certa altura deparou-se com a necessidade de encontrar investigadores que escrevessem a história da catequese nos outros países por onde Portugal andou com destaque para os da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa). Foi fácil encontrá-los?

Já tinha feito a história da catequese, nos seus primeiros tempos, dos povos que também deram origem aos países que vieram a constituir a CPLP. Mas pensei que não devia publicar o trabalho, sem conseguir que pessoas naturais de cada um destes países fizesse a história da catequese dos seus respectivos países dos tempos mais recentes até aos nossos dias. O primeiro país que contactei foi o Brasil, dirigindo-me ao bispo presidente da Comissão Episcopal da Evangelização e Catequese. Disse-lhe o meu projecto; achou muito bem, e sugeriu-me dois nomes a quem reconhecia capacidade e competência, indicando-me o que devia ser contactado em primeiro; ele iria também contactá-lo para que aceitasse o convite. As palavras de apreço pelo projecto e a sugestão do nome para fazer a parte do Brasil, incentivaram-me a tentar descobrir e contactar nomes de pessoas capazes de fazer o estudo em cada um dos outros países. A dificuldade maior foi encontrar alguém de Timor-Leste que fizesse a história da catequese do seu país. A primeira pessoa que contactei foi D. Carlos Ximenes Belo, que, nessa altura, andava ocupado, absorvido com o seu trabalho pastoral em todo o Timor, além das suas preocupações com a situação do país, ocupado pela Indonésia. Tentei outros timorenses, mas todos tinham outras ocupações pastorais mais urgentes que não lhes permitiam aceitar o convite. E o tempo ia correndo… Faltava-me Timor; mas eu não queria publicar o trabalho sem Timor. Até que D. Ximenes Belo resigna das suas funções de Bispo de Dili e eu voltei a contactá-lo, insistindo na necessidade de algum timorense fazer o trabalho; e ele era a pessoa mais indicada. Acabou por aceitar, o que me deu muita alegria, não só por ser timorense, mas também por ser D. Ximenes Belo. Podia, agora tratar da publicação do trabalho.

Estes dois volumes deram-lhe, como relata, muito trabalho a investigar. Quer contar alguma situação em que a pesquisa tenha sido particularmente difícil?

Um dos trabalhos mais difíceis foi descobrir alguns catecismos feitos pelos nossos missionários nas línguas que eles tiveram de aprender, como o concani (língua de Goa), o chinês, o japonês, o tamul (parte da Índia, Madrasta; norte da ilha de Ceilão, o actual Sri Lanka), as línguas dos povos Índios do Brasil (tupi, guarani, kariri…), alguns deles manuscritos, e conseguir a sua reprodução, pois só existiam em bibliotecas estrangeiras. Trabalho especial tive quando tentei descobrir um catecismo feito por um padre português, jesuíta, depois feito bispo e nomeado patriarca da Etiópia, D. Afonso Mendes. O catecismo estava em amárico, a língua mais falada da Etiópia ou Abissínia – a “terra do Preste João”. O jesuíta tinha trabalhado na evangelização daquele país durante um período em que o Imperador ao tempo era favorável e dava toda a liberdade à sua acção e à de outros padres que tinham ido com ele.

Com a ascensão ao poder de um novo imperador, a situação mudou totalmente, a ponto de ter sido proibido de continuar a trabalhar no país. Pus como primeira hipótese que ele tivesse deixado o catecismo na Etiópia; comecei por fazer diligências e pesquisas em Novembro de 1998, para tentar encontrar este catecismo na Biblioteca ou Arquivo Nacional, em Adis-Abeba.

Como não obtive qualquer resultado, pedi ajuda a uma religiosa portuguesa que estava a trabalhar numa escola-orfanato em Adis-Abeba para ir pessoalmente à Biblioteca Nacional para tentar descobrir o tal catecismo, mas não foi encontrado. Entretanto descobri que, afinal, ele não o tinha deixado lá, mas tinha-o mandado para Roma para a Congregação da Propaganda Fide – hoje Congregação para a Evangelização dos Povos – de quem tinha recebido uma carta a acusar a sua recepção. Voltei a minha pesquisa para esta direcção e escrevi para o Arquivo Histórico daquela Congregação, solicitando que fosse feita pesquisa para encontrar o tal catecismo. Foi-me respondido que, tendo sido feita uma «aturada pesquisa», não conseguiram encontrar o tal catecismo.

Por causa do trabalho de investigação, tive de ir vezes sem conta à Torre do Tombo, à Biblioteca Nacional, à Biblioteca da Universidade de Coimbra e a várias outras bibliotecas.

Ao longo de toda a investigação, que aspecto ou aspectos foram para si especialmente gratificantes descobrir?

Encontrar e ver os catecismos portugueses mais antigos que existem, feitos pelos monges de Alcobaça, nos finais do século XIV ou começo do séc. XV, códices em pergaminho, em letra ‘gótica’ de quatrocentos com iniciais a vermelho, azul e violeta, algumas delas grandes e filigranadas com belas iluminuras a embelezar as primeiras letras de cada capítulo; além destes, um em língua tamul e português por cima, manuscrito, além de muitos outros nas línguas dos povos evangelizados pelos portugueses.

Depois de ter estudado e sabido a gesta heróica dos nossos missionários, um momento gratificante para mim foi ouvir, há pouco mais de um mês, uma jornalista da Rádio Renascença contar, num programa de domingo, que tinha estado em Hanoi (Vietname), e no domingo que lá passou ter ido à missa, à catedral, tendo visto que estava repleta de féis; e havia muitos no adro, por não terem lugar dentro da igreja, a acompanhar a missa, sentados em banquinhos que levam de sua casa. Eu disse comigo: foram os missionários portugueses que levaram o cristianismo para o Vietname, e, passados estes séculos, de guerras e de repressão de regimes comunistas, os cristãos actuais, descendentes dos evangelizados por nós, manifestam uma fé viva!

Que aspectos são verdadeiramente novidade na sua obra?

Uma história da catequese de todo o Portugal (e de todas e cada uma das dioceses), desde o princípio do cristianismo até aos nossos tempos, a história da catequese junto dos povos descobertos pelos portugueses e evangelizados pelos nossos missionários, a história da catequese dos Países da CPLP feita por pessoas de cada um desses povos; a reprodução no livro dos ‘documentos’, sobretudo catecismos, mais antigos, e a capa dos catecismos impressos. Com a reprodução integral desses catecismos publicados.

Com este trabalho, os interessados já não precisam de ir à Torre do Tombo ou à Biblioteca Nacional ou a outras bibliotecas, procurar e ver esses textos. Refiro ainda, embora não seja catequese, a lista de Gramáticas e Dicionários bilingues feitos pelos missionários portugueses nas línguas dos povos que eles aprenderam: é uma lista de 20 páginas. Foi um contributo notável para a cultura desses povos, e uma recolha muito útil para os interessados, a mais completa até agora publicada.

Já há data para a apresentação pública em Aveiro?

A apresentação será feita na Semana Nacional da Educação Cristã e Catequese, que é na primeira semana de Outubro.