Santos de Bento XVI Conta David Lodge no romance “A vida em surdina” (Asa, 2009) que enquanto a cegueira é trágica, pense-se em Édipo ou em Sansão, a surdez é cómica, motivo de ridículo. Todos os poetas falam dos olhos, mas nenhum diz: “Bebe à minha saúde com as tuas orelhas apenas”. As pessoas encaram os cegos com compaixão e fazem tudo para os socorrer, até “afagam os seus cães-guia”. Quanto aos surdos, se já não gozam como eles, por respeito, nem sempre conseguem evitar a irritação por causa do constante “O quê? O que disse?”
Filippo Smaldone distinguiu-se precisamente por dar atenção aos surdos-mudos, num tempo em que era uma fatalidade nascer-se ou tornar-se limitado na fala e na audição. Contribuiu como poucos para o reconhecimento da dignidade destas pessoas, possibilitando o desenvolvimento das suas capacidades. E criou um instituto feminino para continuar esta obra, cujo patrono é S. Francisco de Sales, o bispo que no séc. XVII aceitou em sua casa um jovem com dificuldade de audição e criou uma linguagem de símbolos para possibilitar a comunicação. Além de padroeiro dos escritores e jornalistas, o bispo de Genebra é padroeiro dos surdos.
Filippo Smaldone nasceu em Nápoles, sul de Itália, no dia 27 de Julho de 1848. Quando tinha 12 anos, a monarquia dos Bourbons, do Reino de Nápoles, à qual a sua família estava muito ligada, foi afastada do poder. A Igreja, com a conquista de Garibaldi, conheceu momentos dramáticos, tendo sido exilado o cardeal Sisto Riario Sforza.
Não eram tempos favoráveis e promissores, especialmente para os jovens, que sofriam as mudanças do novo período social, político e religioso. Mas foi exactamente nesta fase de crise institucional e social que Filippo tomou a decisão irrevogável de assumir o sacerdócio e de se ligar para sempre ao serviço da Igreja.
Quando já estudava filosofia e teologia, quis deixar uma marca de serviço caritativo no seu percurso e dedicar-se à assistência de uma categoria de pessoas marginalizadas, muito numerosa e abandonada nessa época: os surdos.
Foi ordenado padre no dia 23 de Setembro de 1871, iniciando um fervoroso ministério sacerdotal como catequista, colaborador zelante em várias paróquias e visitante assíduo de doentes. A sua caridade alcançou o auge da generosidade e do heroísmo por ocasião de uma forte peste difundida em Nápoles, pela qual também ele foi atingido, arriscando a vida. Foi curado e atribuiu a cura a Nossa Senhora de Pompeia, que se tornou a sua devoção predilecta por toda a vida.
Contudo, o cuidado pastoral privilegiado do P.e Filippo Smaldone estava nos surdos pobres, aos quais dedicou as suas energias com critérios mais ajustados, pedagógicos, do que aqueles que eram aplicados no sector educativo da época. No dia 25 de Março de 1885 partiu para Lecce a fim de abrir, junto com o P.e Lorenzo Apicella, um instituto para surdos. Acompanharam o sacerdote algumas religiosas que ele formara anteriormente. Desse modo, criou-se uma base para a fundação da Congregação das Irmãs Salesianas dos Sagrados Corações, que foi muito apoiada pelos bispos de Lecce, D. Salvatore Luigi dei Conti Zola e D. Gennaro Trama.
Durante quase quarenta anos o P.e Filippo Smaldone dedicou-se sem esmorecimentos ao apoio material e à educação dos seus queridos surdos, os quais amava com afecto e cuidado de pai, e fortaleceu a congregação que ele próprio fundou e que hoje está presente em Itália, Brasil, Paraguai e alguns países africanos.
Faleceu no dia 4 de Junho de 1923, em Lecce, na sequência de uma prolongada doença. Foi beatificado por João Paulo II em 12 de Maio de 1996 e canonizado por Bento XVI no dia 15 de Outubro de 2006.
Fonte principal deste texto: www.vatican.va
Principais datas de Filippo Smaldone
1848 – 27 de Julho. Nasce Filippo Smaldone em Nápoles, Itália
1860 – Filippo toma a decisão de ser padre
1871 – 23 de Setembro. É ordenado padre
1885 – 25 de Março. Parte para Lecce para abrir um instituto para surdos
1923 – 4 de Junho. Morre em Lecce, aos 74 anos
1996 – 12 de Maio. É beatificado por João Paulo II
2006 – 15 de Outubro. É canonizado por Bento XVI
“Via nos surdos-mudos a imagem de Jesus”
São Filippo Smaldone, filho da Itália meridional, soube conciliar na sua vida as melhores virtudes próprias da sua terra. Sacerdote de coração grande, alimentado pela oração constante e pela adoração eucarística, foi sobretudo testemunha e servo da caridade, que manifestava de modo eminente no serviço aos pobres, em particular aos surdos-mudos, aos quais se dedicou totalmente. A obra que ele iniciou continua graças à Congregação das Irmãs Salesianas dos Sagrados Corações por ele fundada, e que está difundida em diversas partes da Itália e do mundo. São Filippo Smaldone via reflectida nos surdos-mudos a imagem de Jesus e costumava repetir que, assim como nos prostramos diante do Santíssimo Sacramento, também é preciso ajoelhar-nos diante de um surdo-mudo. Aceitemos do seu exemplo o convite para considerar sempre indissolúveis o amor à Eucaristia e o amor ao próximo. Aliás, só podemos obter a verdadeira capacidade de amar os irmãos no encontro com o Senhor no sacramento da Eucaristia.
Excerto da homilia de Bento XVI, em Roma, no dia 15 de Outubro de 2006
Filippo Smaldone via reflectida nos surdos-mudos a imagem de Jesus e costumava repetir que, assim como nos prostramos diante do Santíssimo Sacramento, também é preciso ajoelhar-nos diante de um surdo-mudo.
Bento XVI
