Um coração de carne!

A palavra foi breve. Mas deixou muita gente a pensar. Uma manhã destas, aos microfones de uma das nossas rádios, o entrevistado confessava que, quando mais novo, se ria da atitude do seu Pai, o qual, na hora da refeição familiar, enquanto os outros comiam o que fora preparado, ele abria a porta do frigorífico e procurava compor a sua ementa com os restos que por lá se encontravam.

Um dia, as coisas mudaram radicalmente no seu espírito. Vira uma daquelas reportagens de arrepiar, em que as crianças definham de fome, chegando a estados de desnutrição tais que nem sequer conseguem sacudir as moscas que lhes invadem o rosto: os olhos, o nariz, a boca.

A pancada no fundo da consciência foi de tal ordem que se sentiu na obrigação de, a partir dessa altura, não desperdiçar um bago que fosse de arroz! Das suas palavras, depreendia-se que aprendera a lição: o que esbanjamos em excessos e desperdícios é o essencial que falta a uma multidão de pobres, à míngua do indispensável para sobreviver.

O drama corre o mundo. Ninguém pode dizer que não sabe que, na Somália, uma forte seca, a pior dos últimos sessenta anos, afecta milhões de pessoas, entre elas mais de dois milhões de crianças, das quais cerca de meio milho corre risco eminente de morte por falta de alimentos e água potável.

Os deslocados para países vizinhos, também eles cheios de carenciados, engrossam o caudal dos famintos, que se estima em cerca de onze milhões de pessoas. O Santo Padre, no último domingo, apelou à Comunidade Mundial, pedindo a mobilização de todos os recursos para salvar o povo deste país africano, que, a par com um conflito entre governo e rebeldes, viveu, na realidade, duas décadas sem governação efectiva.

Quando se fala de crise, entre nós, e de pobreza real, mesmo com a fome a bater à porta de muita gente, o drama não é, de modo algum, comparável. E, com a cultura de uma vida sóbria e de uma partilha solidária, é perfeitamente possível superar as urgências mais prementes e recriar a esperança.

E os recursos mundiais, geridos com justiça e equidade, podem perfeitamente colmatar as calamidades que as causas naturais vão criando à face da terra. Mas para isso, a palavra do profeta urge que se realize e que, do peito de muita gente, se arranque um coração de pedra, para germinar um coração de carne!

Os cristãos sabem que esse é um dos parâmetros de avaliação do uso que fazemos da vida que Deus nos concede e do modo como nos servimos dos bens que nos põe à disposição. Um copo de água dado por caridade fraterna não ficará sem recompensa. E cada gesto de solidariedade que tivermos com quem necessita será com o próprio Cristo que o temos, como também essa omissão.