É simples: funciona assim

Colaboração dos Leitores A crise desenvolve o engenho e a arte. Se pensarmos bem, é tudo muito simples.

As crises do mundo, da Europa, Portugal, e a de cada família e pessoa, são todas muito parecidas. Só que aparecem esses mal-intencionados das agências de “rating” e complicam tudo.

A crise está aí porque se gasta mais que se tem? Ou porque eles andam sempre a medir e pesar o que cada um gasta sem o ter? Todos os dias nos explicam que é pela primeira razão; e todos os dias nos dizem que é pela segunda. Os obesos, afinal, chegaram a isso por comerem ou por culpa da balança que os pesa? Se é por consumos a mais, a solução está em consumir menos. Mas vêm logo outros sábios dizer que é devido à balança avariada, e que não é assim tão importante consumir menos. Para quê então consumir menos? Mude-se de balança. A do vizinho deve estar mais afinada, e se ela diz que é por se consumir mais que se deveria, procure-se outra. Também se pode procurar o parecer doutro sábio, mais sábio, doutro médico, que seja mais compreensivo, que diga que consumir ajuda a sair da crise, digo, da obesidade e da crise. Bem, se isso leva a continuar a dever e a aumentar as dívidas, se vai continuar a engordar os gastos do estado, digo, do indivíduo, procurem-se outras soluções. Por exemplo, reduzam-se e substituam-se os “boys”, digo os alimentos, por outros. E logo outros gritam que assim o consumo não diminui. Outros sábios são de parecer que só pondo o país, o obeso, a produzir mais e consumir menos, em maior actividade, para exportar mais que consome.

A gritaria, porém, continua: se não consomem a recessão e desemprego aumenta; consuma mais isto, compre mais aquilo, seja feliz com um pouco mais de gastronomia, não se esqueça do festival este e aquele, não fique à margem, tire mais uns dias de folga. Compre mais este artigo bonito e aquela casa ou carro. Tudo como que a dizer: a crise precisa de si, do dinheiro que ainda tem, e se não têm nós damos um jeito e emprestamos. Não se esqueça que amanhã pode já não ter, porque a crise nem sequer começou. Maldita da balança dos “ratings” a clamar que assim as dívidas da família e do país aumentam. Mas tranquilize-se. Se a crise aumenta, feche os olhos e os ouvidos aos alarmes, é por culpa das “ratings”; se as dívidas da família crescem é pelas revisões em baixa dos bancos; se a gordura à volta dos rins forma um pneu mais inchado, é por culpa da balança.

Aires Gameiro