Destruição da igreja do séc. XVII foi um atentado contra o que de melhor havia em Vagos

P.e Manuel António Carvalhais, pároco de Vagos desde 1993, acaba de publicar “São Tiago de Vagos”, volume de 368 páginas dedicado ao património artístico da paróquia de Vagos, com amplo destaque para a igreja matriz. A obra inclui numerosas imagens dos templos, dos objectos litúrgicos e da estatuária e transcrições de documentos antigos. Como escreve o autor no prólogo, é uma “tentativa de inventariação do património artístico-religioso, preservado, quase por milagre, até aos nossos dias”. A obra será apresentada publicamente, no dia 24 de Julho, no Salão Paroquial de Vagos, a partir das 18h30, numa sessão animada com fados e ilusionismo. Entrevista conduzida por Jorge Pires Ferreira.

CORREIO DO VOUGA – Para além do valioso trabalho de inventariação do património artístico-religioso, pretende com este livro de alguma forma reparar uma injustiça…

MANUEL ANTÓNIO CARVALHAIS – Sim. Existe a ideia de que o pároco, P.e Manuel Vieira de Carvalho e Silva [já falecido], foi o único culpado do derrube da igreja setecentista, que era uma jóia arquitectónica, como o leitor pode verificar pela imagem da capa do livro. Afinal, há documentação escrita suficiente para verificar que ele próprio se sente ultrapassado pela força política e, mais do que isso, há como que um engano progressivo de que ele se vai dando conta. Primeiramente, tratava-se de um restauro puro e simples. Depois, pretendia-se fazer uma refundição, isto é, a desmontagem da igreja pedra a pedra para uma reedificação rigorosamente igual à anterior, apenas em espaço diferente. Numa terceira fase, falava-se em remodelação ou reutilização dos elementos mais valiosos, com novos materiais e espaços. Aqui já havia uma miscelânea. Por fim, o que aconteceu foi o derrube da igreja setecentista e a edificação de uma nova, de raiz.

A ordem das obras, para deixar a Estrada Nacional 109 ampla e para dar mais brilho ao Palácio da Justiça, veio do Ministério das Obras Públicas. Se agora, após muitos anos de democracia, ainda nos queixamos do centralismo, naquele tempo não havia a sensibilidade que hoje há para com os monumentos. A solução, hoje, não seria destruir. A estrada teria um só sentido e seria construída outra, provavelmente a nascente. Hoje todos reconhecem que foi uma grande perda, um atentado contra o melhor que havia em Vagos.

Como era o templo do século XVII?

Era uma igreja com muita pedra calcária nos cunhais, uma fachada enobrecida, de traços barrocos, muito enriquecida por um cónego e doutor de Coimbra, Pe. João de Miranda Ascenso, que foi pároco no séc. XIX, durante 56 anos. A talha não era muito rica, era um barroco pobre, mas hoje, devidamente dourada, teria um efeito admirável.

O que aconteceu a essa talha?

Sumiu completamente, vendida ou queimada. A arquitectura do novo templo não previu nada para enquadrar a talha e os retábulos.

Na altura não havia comissão diocesana de arte sacra?

É por isso que defendo que o culpado não é de modo nenhum o padre Manuel Carvalho e Silva. Outras forças deveriam ter lutado e negociado com o Ministério das Obras Públicas.

Quem entra na igreja de Vagos pela primeira vez surpreende-se porque o exterior não condiz com o interior.

Só foram conservados a torre e outros elementos da fachada, mas muito empobrecidos. A cantaria trabalhada da porta principal foi muito simplificada. Se virmos a torre e o remate da fachada principal, verificamos que foram subaproveitados. No fundo é uma igreja em permanente conflito e divórcio. A parte nova não casa de forma nenhuma com a parte salvaguardada da torre e da fachada.

Para mais, no edifício original, a torre ficava à direita. Agora está à esquerda. Quando tempo demorou este processo de derrube e construção?

A igreja foi desmontada e remontada com perda de alguns elementos. Levaram dois anos a derrubar a igreja, em 1972-73, e uma infinidade de tempo a reconstruí-la. Só ficou acabada nos meus dias. Eu ainda encontrei o coro em cimento. O meu colega anterior, Pe. Manuel Teixeira das Neves [já falecido], introduziu três elementos: tecto falso de lamelas de zinco, guarda-vento de bom traço, do arquitecto António Manuel Portugal, o mesmo autor dos palácios da justiça de Vagos e de Cantanhede. Uma peça nobre. E um lambrim de madeira, no corpo principal da igreja. Eu, que sou pároco desde 1993, concluí o coro e as salas, que estavam em cimento. Todos os chãos, excepto o da igreja, estavam por acabar. O acesso ao coro ainda estava por rebocar.

A nova igreja chegou a ser inaugurada?

A bênção foi adiada “sine die”. O Pe. Manuel Carvalho e Silva deixou escrito no “Terras de Vagos”, em 1979, o desejo de uma inauguração para breve. Passados seis anos, o Pe. Manuel Teixeira das Neves manifestou a mesma preocupação. Põe o problema a D. António Marcelino que, ao celebrar lá o Crisma, dá por inaugurada a igreja mas refere que a dedicação haveria de acontecer numa cerimónia condizente, em data a escolher. Esta cerimónia nunca vem a acontecer, o que está contra a legislação da Igreja. Era uma questão que já estava morta quando lá cheguei. E eu não a ressuscitei.

O espaço interior, contudo, parece agradável. É essa a impressão das pessoas e do pároco?

A assembleia está toda próxima de nós. O conceito não é anti-Vaticano II, mas está longe de ser um espaço circular. Houve um esforço de planeamento para que nada impedisse a visão directa do sacerdote. Ora, esta concepção, em parte, já foi ultrapassada pelos teólogos e liturgistas, que dizem que os mistérios da fé não são para se ver. Havia nessa pretensão algum racionalismo.

No entanto, as pessoas não se sentem felizes lá dentro porque recordam a outra igreja. Mais de metade da população ainda é desse tempo. O lamento dos mais velhos é geral.

O seu livro não se dedica exclusivamente à Igreja de São Tiago…

Além da igreja, faço o elenco de todos os templos da paróquia, exceptuando o da Senhora de Vagos, que foi tratado em livro, no ano 2000.

Qual é o templo mais antigo de Vagos?

É o Santuário da Senhora de Vagos, que é do séc. XVI, edificado pelos monges de Grijó. Na vila, temos dois templos do séc. XVII; a capela de S. Sebastião, que é de 1614, e outra que fica a norte, outrora chamada capela do Espírito Santo, actualmente capela de Santo António, uma capela rotunda de 1673. Esta capela à entrada de Vagos esteve para ser demolida, por ter sido profanada. Mas não se sabe em que consistiu essa profanação. Foi salva pelo pároco de então, Pe. Dr. Alexandre José da Fonseca, do clero de Coimbra.

Algum património artístico pode agora ser apreciado no museu paroquial inaugurado em 25 de Julho do ano passado. O que destaca?

O museu tem sobretudo imagens da igreja de Vagos. Trata-se de um património que vai do séc. XV ao XXI. A jóia da coroa é uma imagem de S. Marcos oferecida pelos frades de S. Marcos, nas proximidades de Coimbra, que eram os patronos da igreja. Eram eles que mandavam para lá os freis, que eram os párocos de Vagos antes dos padres diocesanos. Outra jóia da coroa é uma custódia de prata dourada, do séc. XVII. Pesa 5.575 gramas. É de um ourives aveirense, do séc. XVII. É usada na procissão do Corpo de Deus e na da primeira Comunhão. A imagem de N.ª Sr.ª do Rosário, do séc. XVIII, estofada a ouro, também é muito valiosa.

Este património de vez em quando sofre com grandes arrombos…

É demais. Quem lê o livro encontra muitas referências a grandes furtos, como o da píxide de prata dourada, do séc. XVIII, roubada em Junho de 1987. Faço aí uma reflexão cheia de sebastianismo, mas sem grande convicção.

Mais recentemente roubaram uma imagem do Menino Jesus, no valor de 500 euros, e assaltaram também a capela de S. Sebastião, furtando a imagem do séc. XVII.

Quanto tempo demorou a concretizar este livro, no meio de outros afazeres pastorais?

Trabalhei nele cerca de oito anos. Poderia ter demorado menos, não fossem algumas doenças pelo meio.

Das suas investigações quer contar-nos algum aspecto mais curioso?

Encontrei no sino da igreja de N.ª Sr.ª da Misericórdia esta legenda: “Eu sou da Câmara”. Isto intrigou-me. Fui à Câmara Municipal de Vagos (CMV), e por uma questão de sorte, encontrei uma senhora que estava a ler todos os documentos para saber qual o património que a CMV possui em terras e bens. Ela descobriu uma acta de que toda a gente se esqueceu, elaborada em 11/01/1945, em que se defere o requerimento do juiz da Irmandade a pedir o sino que era do antigo tribunal. O presidente da Câmara aceitou o pedido, desde que o sino fosse usado somente para fins religiosos e que a Irmandade o restituísse intacto quando deixasse de precisar dele.

Aspecto que considero grande novidade tem a ver com os malefícios que a República fez à Igreja em Vagos. Transformou as Irmandades em associações de beneficência. A Irmandade dos Passos tem estatutos de 1694, que são alterados em 1876 e modificados em 1913. Ora, esta transformação é arrasadora. Quem manda, quem nomeia os órgãos é o Governo Civil. A Irmandade é uma associação de beneficência que tem de ver se os miúdos vão à escola, comprar-lhes livros, batas e alimentos… As Irmandades eram muito ricas. A do Senhor dos Passos era o banco do povo. Nos séculos XVIII-XIX parecia que tinha um cofre inesgotável: comprava remédios para doentes, oferecia pão, arroz, macarrão, carnes, vinho fino, pagava passagens para Aveiro, Porto, Guimarães, financiava caixões a pessoas pobres…Encontrei a referência a um donativo para apoiar a viagem de uma mãe com os três filhos para o Brasil. Que paróquia, grupo Cáritas ou Conferência Vicentina teria hoje dinheiro para pagar a viagem de avião ou de barco de uma mãe com os seus três filhos? As Irmandades tinham muitos bens, provenientes de rendas. O drama foi que as rendas começaram a não ser pagas.

Onde vai estar à venda este livro?

Não vai estar à venda. Editei 1500 exemplares. 1300 vão ser oferecidos às famílias de Vagos, um por família. Já está estruturada uma equipa que fará a entrega de casa em casa. Só não entregaremos a pessoas de outras religiões, a não ser que o queiram por uma questão cultural. Os restantes serão oferecidos aos padres e diáconos da Diocese de Aveiro e a um ou outro amigo.

A oferta dos livros aos paroquianos tem algum objectivo pastoral?

Tem sem dúvida objectivos catequéticos e pastorais. No livro, entre outros aspectos, descrevo a vida dos Santos e refiro se eles têm algum culto ou por que é que esse culto desapareceu. A Senhora de Vagos foi o pólo centralizador. São Sebastião não tem hoje um devoto. Perpassa por todo o livro a finalidade pastoral no sentido de entendermos, por exemplo, que as valiosas peças dos séculos passados eram uma forma de mostrar a grande fé no Deus transcendente e a pequenez e fragilidade do ser humano. Os cristãos da Idade Média (e não só) guiavam-se por este princípio: “Para Deus o melhor”.

Se o livro é oferecido, houve nele um razoável investimento financeiro, além do trabalho que teve…

O Fundo Económico Paroquial vai assumir parte dos custos. E fiz ainda três pedidos, às duas Irmandades que vêem aqui o seu património salvaguardado e devidamente identificado (a do Senhor dos Passos e a da Nossa Senhora da Misericórdia), e à Comissão Administrativa da Igreja do Lombomeão.

Depois deste projecto tem mais algum?

Gostava que alguém escrevesse, e penso que faz falta a Aveiro, sobre os “Padres de Abril” – poderia ser este o título – na Diocese de Aveiro: os que tinham ficha na PIDE, aqueles a quem a PIDE vigiou e de quem elaborou ficheiros.

Deduz-se que o P.e Carvalhais é um deles. Já consultou o seu processo?

Sim. Eu tenho dois. Nos mesmos ficheiros em que eu estou, vêm referenciados outros que trabalhavam comigo nas paróquias do arciprestado de Águeda. Uma das fichas é por causa de um jornal feito em Janeiro de 1973 de título “A Paz”, distribuído no arciprestado de Águeda.

Há muitos outros presbíteros em toda a Diocese que se comprometeram na luta contra a ditadura política e contra a injustiça das guerras coloniais.