Pilatos, já meio perturbado pela recomendação da esposa que pedia que não se deixasse envolver nas acusações e, cada vez mais baralhado pelas contradições dos acusadores e pelos gritos da gentalha, quis que fosse Jesus, o acusado, a esclarecer a situação. Mas Ele apenas afirmou: “Vim ao mundo para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz”. E Pilatos, ainda mais perplexo, apenas disse, em ar de pergunta de que não esperou resposta: “Que é a verdade?”
Este é o drama da sociedade actual: a verdade perdeu a cotação, foi posta a leilão, interessa a poucos conhecê-la e, quando se procura ou se pergunta por ela, não se espera pela resposta de quem a pode testemunhar e propor feita vida.
Será que alguma vez a vida pode ter sentido de dignidade e garantia de futuro se apenas se basear em sentimentos e opiniões avulsas, ou se construída à margem da verdade objectiva e de princípios fundamentais, única forma de ter consistência e futuro?
“O apelo corajoso e integral aos princípios é essencial e indispensável”, recordou Bento XVI aos bispos portugueses. Uma recomendação apta para fazer caminho todos os dias.
O ambiente social, pejado de mentira, deixou-se inquinar por interesses pessoais e de grupos, para os quais a verdade será sempre incómoda e, por isso, desprezada.
Não faltam, é ainda o Papa que no-lo recorda, “muitos crentes envergonhados que dão as mãos ao secularismo, construtor de barreiras à inspiração cristã”, ou seja, à procura e ao acolhimento dos princípios morais que regulam a vida pessoal e em sociedade.
A tradição religiosa, ainda a que é a mais expressiva em muitos cristãos, denuncia uma fé pouco esclarecida, que foi passando, de modo passivo e apenas traduzida em alguns actos e hábitos, de avós a pais e a netos. Deixou de ter força suficiente para que se possa contar com ela, como resistente positiva às novas influências sociais e culturais, que somos chamados a enfrentar todos os dias. É como uma árvore de raízes à superfície, subalimentada como a figueira estéril do Evangelho, com mais ramos secos e estéreis que vivos e prometedores de frutos.
Os crentes envergonhados terão acesso à verdade, antes de mais, quando esta lhe for apresentada por crentes esclarecidos, que saboreiam diariamente a alegria da fé e do compromisso generoso, a favor dos outros e das causas da justiça, dos direitos humanos, da verdade e da paz.
É de novo o Papa a apontar caminhos, quando diz que “uma mera enunciação da mensagem não chega ao mais profundo do coração da pessoa, não toca a sua liberdade, não muda a vida”.
A exemplaridade é, hoje, o requisito mais importante no processo educativo da transmissão da verdade, do sentido e dos valores morais e éticos. Convence mais o que se vê do que aquilo que se ouve. Ver é irrecusável, ouvir é sempre discutível.
O testemunho corajoso da verdade, para quem acredita, mostra que a fidelidade à verdade é possível e se torna sempre expressão de liberdade pessoal e libertação interior, frente à tirania e às pressões organizadas dos dogmáticos da superficialidade, da fragilidade e da vida à base de interesses, nem sempre confessáveis.
O secularismo a que muitos crentes, de modo consciente ou inconsciente, dão as mãos esvazia as suas vidas de esposos e de pais, de cidadãos responsáveis, de cristãos activos.
Ele é o promotor da terra queimada. Onde se anula a dimensão espiritual, nada se pode esperar de vital e de fecundo.
O testemunho da verdade é grande denúncia do vazio de que enferma a sociedade. O agir da Igreja tem aqui grande sentido. Bento XVI não se cansa de o dizer. Ao passar a mensagem aos bispos deixou um contributo marcante à recuperação urgente da verdade.
