A pesca da xávega, a aviação naval e os estaleiros navais foram os três factores que marcaram profundamente o povoamento e o desenvolvimento social e económico de São Jacinto.
No príncípio era a xávega
Com mais de cinco séculos de história, a pesca da xávega poderá ter estado na origem do primitivo povoado, desenvolvido em torno da secular Capela de Nossa Senhora das Areias (actual Igreja Matriz), que remonta ao século XVII, ainda que haja referências históricas que aventem a hipótese de ter existido um templo naqueles areais, no século XV, e um cruzeiro no ano de 1584.
Após a abertura do canal da barra, em 1808, algumas companhas da pesca da xávega que operavam em S. Jacinto e terras a norte mudaram-se para o sul do canal da barra, dando origem à Costa Nova do Prado. Nessa altura, eram mais de cinco as companhas que operavam na costa de S. Jacinto, actividade que envolvia cerca de duas centenas de pessoas.
Actualmente, os pescadores de S. Jacinto já não se dedicam à pesca da xávega.
Da Aviação Naval aos pára-quedistas
Em Janeiro de 1918, em S. Jacinto, começou a ser instalado um dos três centros (bases) que a Aviação Marítima tinha previsto criar em Portugal (os outros dois eram em Lisboa e Faro). Em Abril desse ano chegaram as primeiras aeronaves (hidroaviões) e um contingente de tropas francesas, sob o comando do tenente Maurice Larrouy, que aí permaneceu até ao final da Primeira Grande Guerra. No dia 8 de Dezembro de 1918, essa base foi formalmente entregue à Aviação Naval, ficando então sob o comando do tenente aviador Moreira de Carvalho.
Em 1921, é construído em São Jacinto o maior hangar da Península Ibérica. Em 1927, é instalada no centro a Escola de Aviação Naval Almirante Gago Coutinho. Em 1937, é construída uma pista terrestre que permite à base, além dos hidroaviões, passar a operar também aviões convencionais. Esta pista é também a primeira a ser iluminada eletricamente em Portugal, permitindo descolagens e pousos nocturnos em maior segurança.
Foi na base de S. Jacinto que Sacadura Cabral treinou e preparou a primeira travessia aérea do Atlântico Sul, entre Lisboa e o Rio de Janeiro, viagem que efectuou na companhia de Gago Coutinho, tal como já havia acontecido com a travessia Lisboa – Funchal.
Com a criação da Força Aérea Portuguesa a base de S. Jacinto passa a integrar este ramo das Forças Armadas, em 1953. Em 1978, a unidade passa a integrar uma base de tropas pára-quedistas, em conjunto com o aeródromo militar já existente, altura em que os céus da região eram palco para os voos dos T6.
Em 1992, a Base Aérea é desactivada como unidade independente e, no ano seguinte, a Base Operacional de Tropas Pára-quedistas passa para a tutela do Exército com a denominação de “Área Militar de S. Jacinto”. Em 2006 assume a designação de Regimento de Infantaria n.º10.
Estaleiros Navais
Os Estaleiros Navais de S. Jacinto foram fundados em 1940, por iniciativa de Carlos Roeder, empresário ligado à pesca do bacalhau, que estudou na Escola Politécnica de Lisboa e formado em engenharia na Alemanha.
Até 1945, e devido à falta de materiais provocada pela Segunda Guerra Mundial, os estaleiros de S. Jacinto dedicaram-se exclusivamente à construção metálica e construção de máquinas. O seu primeiro grande trabalho de engenharia foi o hangar da Base de S. Jacinto, com 60 metros de vão e que teria de suportar nas asnas dois hidroaviões.
O primeiro navio a ser reparado nos estaleiros de S. Jacinto foi o “São Gonçalo”, propriedade da firma Bagão Nunes e Machado.
Em 1945, teve início a construção dos navios “Caramulo” e “Nereus”, os primeiros a serem construídos na freguesia aveirense. De realçar que esses navios foram os primeiros em Portugal a receberem soldadura eléctrica em grande escala, tecnologia introduzida em Portugal por Carlos Roeder.
Os Estaleiros de S. Jacinto foram os primeiros em Portugal, e talvez mesmo a nível nacional, a efectuarem um “jumboizing”, ou seja cortar um navio ao meio e aumentá-lo, melhorando-lhe a capacidade de carga, que teve como alvo o navio “Rui Alberto”, propriedade do armador gafanhense João dos Santos.
Em 1955, com a construção do navio “João Ferreira”, os estaleiros aveirenses voltam a inovar a nível nacional, projectando um navio com características totalmente novas no que se refere à distribuição dos seus espaços, para além de ser o primeiro navio em Portugal a beneficiar de iluminação e força motriz com corrente alterna, em substituição da corrente contínua usada até ai.
Também foi em S. Jacinto que foi construído o primeiro arrastão português de arrasto pela popa, o “Atrevido”, para a empresa Pescarias Beira Litoral, para a pesca costeira. Em 1964, foi entregue o primeiro arrastão português de arrasto pela popa para a pesca longínqua, o “Santa Isabel” para a Empresa de Pesca de Aveiro (EPA), também construído em São Jacinto.
Na segunda metade da década de 1980, os Estaleiros de S. Jacinto construíram alguns dos mais modernos navios de pesca da Noruega, incluindo dois “quebra-gelos”.
Foram estes estaleiros que, em Portugal, projectaram e construíram os primeiros navios palangreiros para o palangre de superfície, o “Paralelo” e o “Meridiano”. Igualmente, foram os únicos estaleiros navais portugueses a construir, com projecto “Campbell” de San Diego, atuneiros oceânicos.
Na década de 1970, os estaleiros empregavam mais de meio milhar de trabalhadores.
Apesar desse historial, os Estaleiros de S. Jacinto foram desactivados e deles pouco resta, não havendo qualquer museu que preserve e divulgue projectos, maquetas e equipamentos desses gloriosos tempos.
Cardoso Ferreira
